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Sete Minutos

ReproduçãoKatia Betina

Katia Betina

Acordei 7 minutos antes do horário programado para o despertador tocar me avisando que estava na hora de encarar um novo dia.

Sete minutos… Tempo insuficiente para um cochilo e longo o bastante para eu me questionar se valia a pena levantar logo, já me programo com folga para não haver atrasos.

Acordar um pouco antes acontece com muita frequência, uso esse tempinho pra dizer pra mim mesma, – Tem aí um novo dia, vai lá e vive.

Mas por algum infortúnio tentei fazer algo diferente, as coisas não tem dado muito certo e achei que podia inovar.

Tentei respirar e meditar um pouco e apesar de saber que cinco minutos já são suficientes, não consegui me desligar do fato que havia um despertador pronto para alarmar.

Usei aquele tempinho não pra olhar para frente como faço, olhei para trás, cometi um equivoco…

Fiz uma lista de uma meia dúzia de acontecimentos que tiveram um desfecho diferente do que eu desejava e percebi como tem semelhanças entre eles, certamente a vida tem tentado me mostrar alguma coisa e eu cega pelas amarras que adotei, não acerto me mexer em outra sintonia.

Adotei caminhos que identifiquei como sendo de compromissos com o justo ou com o correto, mas nessa manhã me questionei se acertei. A vida é mais fácil quando não é levada a sério, como foi muito lembrado com a morte da Elke Maravilha “afinal não sairemos mesmo vivos dela”.

Meu santo protetor, o Acaso, sempre atento, cuida de resolver um monte de problemas, de retirar obstáculos, de afastar os encostos, mas ele é silencioso, age sem combinar nada comigo, chego a acreditar que é minha imagem e semelhança, quando convencido do que é certo, não cede.

Isso acaba por resultar em caminhos interrompidos abruptamente, sem que eu tenha tido sequer o tempo necessário para ter lido a plaquinha de sinalização onde estava escrito “Perigo” e pudesse me preparar.

Aqueles sete minutos teriam sido suficientes para um seriado de TV, uma ópera, um filme. Duraram uma eternidade e depois de transcorridos, quando o som do alarme se espalhou, o estrago estava feito, logo o sete, meu número da sorte.

A vida não acontece como sonhamos e por mais que já saibamos disso ela faz questão de usar uma força desproporcional para nos lembrar que nada somos, que nossa existência não tem nenhuma importância maior, que só existimos pelo que fazemos.

Já estou eu novamente me perguntado qual o sentido da vida e cada dia mais e mais me convenço que é nenhum, não somos compensados ou punidos pelo que somos, apenas somos o que somos a mercê do destino.

Sete minutos podem ou não mudar tudo, até um segundo pode, mas olhar para trás não corrige nada, olhar para frente não assegura nada, nem com sete e nem com setenta minutos. O nada é mais imperativo que o desejo.

A vida levada a sério demais é deprimente e não suporta sete minutos de ócio sem cobrar um preço, sem exigir da sua capacidade de refletir sobre os erros e induzi-lo a acreditar como sendo “minha máxima culpa” e de mais ninguém e, pior, que não há solução para nada.


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