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Uma declaração de amor ao cinema

ReproduçãoKatia Betina

Sou da época que os aniversários tinham 12 balões cheios com o ar dos pulmões, que refrigerante só era servido em dia de festa, que só havia uma televisão para a família toda, que telefone era um luxo e que cinema era pura magia.

Meu avô foi dono de alguns dos cinemas de Maceió, talvez por isso as minhas recordações de toda uma vida, estejam tão recheadas das estórias das telonas e do encantamento que isso significa. Através dos filmes eu vivi muitas vidas, sonhei muitos sonhos e construi muitos planos.

Lembro que ainda bem pequena era levada por minha mãe para assistir a quase todos os filmes livres. Havia uma censura severa e por tudo classificavam como sendo impróprios para 14 ou 18 anos, ou seja, quase não tinha lançamentos e quando isso acontecia, não perdíamos.

Já na entrada tudo parecia magia, a sala de espera, as pessoas arrumadas, eu com olhos de cobiça ficava hipnotizada naqueles cartazes desejando que o tempo passasse rápido para ficar mais velha e poder assistir a todos.

Lembro que achava aquilo tudo tão real que quando fui assistir “20 mil Léguas Submarinas”, senti medo e frio e precisei sair. Durante a exibição de um filme o mundo exterior se extinguia e nada mais existia.

No escuro da sala namorar tinha um sabor especial. Ainda sinto o arrepio provocado pelo toque propositalmente acidental do meu primeiro amor, quase como um pedido de permissão para um beijo, lembro de um monte de falas cuidadosamente pensadas e ditas, aparentemente ao acaso, que me acompanham até hoje.

Como esquecer que “amanhã ē outro dia” do clássico E o Vento Levou, ou a comparação feita com a inocência de uma criança, que se refere a luz da bomba atômica como sendo um flash e diz “como se Deus tivesse tirado uma fotografia” em Império do Sol, ou do místico “eu me vi em você” de 9 1/2 Semanas de Amor?

Filmes muitas vezes valem para mim por apenas uma frase ou por uma imagem. Alguns deles conseguem me transportar para um universo imaginário, exatamente como fez a garçonete de A Rosa Púrpura do Cairo e em outras ocasiões uma experiência tão forte que ajudou a modelar minha personalidade.

Já me fez pensar que a vida não tem sentido sem ter assistido a Cinema Paradiso, ou me inquietou quando me percebi “torcendo pelo bandido” como em Match Point ou em Perdas e Danos.

Já chorei muito no cinema, por vários motivos, pelo inusitado de descrever Edward Mãos de Tesoura, porque não sabia como explicar a intolerância aos diferentes, pela incompreensão dos motivos de uma guerra vivida pelo Menino de Pijama Listrado, Retratos da Vida ou do Labirinto do Fauno.

Através de Camile Claudel, A Moça de Brinco de Pérolas, Frida, Amadeus, Pollock, Caravaggio, Beethoven, Piaf – Um Hino de Amor ou tantos outros, contando uma “realidade” fantasiosa ou não, mais me aproximei de diferentes expressões de arte, me trazendo um mundo mais humano.

Essa tempestade toda de nostalgia foi provocada por causa de uma ida ao cinema esse fim de semana. Por descuido acabei por entrar num desses filmes de produção bem cara, dirigidos para agradar ao grande público e atrair bilheteria e fiquei triste em ver o cinema cheio por gente que não vai ter uma única recordação daquilo no futuro.

O filme nada dizia, em nada encantava, em nada era especial, um monte de efeitos apenas e apesar de ter visto muitas famílias, casais, jovens e crianças, sou capaz de apostar que aquela experiência não ficará gravada na memória afetiva ou que irá ajudar a formar uma alma mais sensível.

A pipoca da minha infância era um saquinho bem pequeno, que comíamos com pena pra não acabar, hoje é imensa, sobra e nada significa. Cinema é lugar de silenciar, isso é outra coisa que aprendi com minha mãe e ensinei para meu filho e que não ē mais respeitado.

Mesmo que as cadeiras fossem desconfortáveis a sala era quase um templo e a experiência quase religiosa. Hoje a cadeira deita, o ingresso custa uma fortuna e a pessoa ao lado passa mais tempo olhando e respondendo mensagem que assistido ao filme e eu, uma tola, que às vezes acho que tudo vale por uma única frase, não entendo como correm o risco de perder esse tesouro.

O cinema me tornou mais próxima de minha mãe, o cinema me tornou mais próxima de meu filho, o cinema está na história da minha família. Nele vou continuar a viajar nas vidas alheias, no passado e no futuro, nos desejos ou nas dores, mas definitivamente não acredito que sendo tratado de forma tão rude, haja quem um dia lembre, da pureza de filmes como Balão Branco ou de O Caminho Para Casa.

A minha época, com tantas limitações, conseguiu me tornar declaradamente apaixonada, tomara que todo esse excesso de hoje não seja capaz de impedir os acessos aos locais mais escondidos da alma, que parecem só estar disponíveis no escurinho de uma sala de cinema.


1 Comentário

  • Parabéns a produção do Alagoas 24h pela escolha da excelente cronista. Adorei a crônica e me personifiquei no momento em que li: “querer crescer logo para poder assistir a todos”.

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