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Designer de sobrancelhas

Dia de domingo é igual à cidade de Veneza, na Itália: ou você ama ou você odeia. Não tem meio termo.

Também pudera, domingo é dedicado a família, ou seja, se não está tudo bem arrumadinho na vida, a chance de ser um dia longo ē grande! As opções de insucessos são maiores que as de dar tudo certo.

Pense comigo; se você está só, corre o risco de sentir solidão, se sua família não é mais aquela de novela, junta, unida, divertida, vai ter que conviver com uma comunhão de traumas. Se a fase não está muito boa, terá tempo de se encontrar com você mesma…

Para completar eu acho que existe um complô da indústria do entretenimento com as TVs, não tem um único programa que preste, é cada um pior que outro, independente dos canais serem abertos ou fechados, não há nada que se possa assistir, o que força uma saída para rua, o problema ē que nem sempre temos para onde ir.

Numa insana insistência para encontrar alguma coisa interessante para passar o tempo, fui trocando os canais, até que me deparei com um programa antigo chamado “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, que nunca havia assistido porque não tenho nenhum espírito empreendedor, mas nesse domingo o assunto me chamou a atenção.

Falava do sucesso empresarial de um casal responsável por franquias de espaços especializados em “designer de sobrancelhas”. Eu parei para me certificar de que havia entendido corretamente do que estavam falando.

Para mim, que passei, praticamente, a vida toda sem nunca ter me dado conta que sobrancelhas existem, imagine a surpresa! Afinal, até pouco tempo eu só havia me aventurado a tirar esses pelos excedentes do rosto como parte do ritual para o dia do meu casamento.

Só sucumbi a prática recentemente, convencida que ficaria com o olhar “mais leve”, seja lá o que isso queira dizer. O fato de ter sobrancelhas sem retoques nunca havia sido um peso, essa novidade apareceu agora só para me aperrear. Depois que incorporo uma coisa, passa a fazer parte do dia a dia.

A novidade é que tendo esse “negócio” agregado ciência, ficou uma brincadeira cara. Antes, que não custava quase nada eu não me importava com isso, agora que os valores cobrados são significativos, eu quase passei a enxergar um Tony Ramos nos olhos. Mesmo assim um empreendimento alicerçado em sobrancelhas me pareceu um exagero.

Atualmente tudo precisa ser grandioso, não se serve mais bife à milanesa, não se faz mais arranjos com as flores do mercado, não se compra mais roupas de festa em boutiques. Hoje tudo é puro glamour, os lençóis têm mil fios, comemos Petit Gateau, usamos hanbags caríssimas.

Meu incômodo com essa novidade da sobrancelha é algo complicado. Ainda que não provoque dor verdadeiramente, o desconforto existe, isso sem falar na esquisitice que é alguém quase em cima de você com uma pinça na mão, parecendo uma sessão de tortura.

Engraçado é como estamos caminhando cada vez mais rapidamente para um ideal inatingível. Tudo tem que ser perfeito. Meninas muito jovens já têm extensa agenda em salão, com utilização de um tempo que poderia ser empregado em tantas outras coisas mais úteis, divertidas e adequadas.

Na exuberância da juventude não há necessidade alguma de mexer na forma da sobrancelha. O brilho dos olhos, cheios com as novidades do aprendizado da vida já são mais que suficientes para transbordar beleza, mas elas, hoje, já consideram imprescindível andar com sobrancelhas estilizadas. Olho as atrizes na TV e no cinema, ou as meninas na academia, e estão todas impecáveis nesse quesito.

Na adolescência não há como o domingo ser chato. Na juventude todo tempo é pouco para gastarmos com a vida em bandos. Nessa fase da vida eu nunca enxerguei sobrancelhas, que dirá imaginar que precisavam de retoques, pinturas ou seja lá o que fazem os designers especializados.

Pensando bem, o salão que frequento podia ser aberto aos domingos, seria uma excelente opção aos péssimos programas de TV ou ao encontro reflexivo comigo mesma. Melhor ainda, a semana podia ser composta de duas sextas feira e nenhum domingo. Aquela sensação “sextou”!!! E na sexta o salão é sempre muito animado, a programação da TV melhorzinha e a vida mais leve, não só o olhar.


2Comentários

  • Adorei, realmente os domingos nem sempre são os melhores dias da semana, pois quando não está bom são chatos e demorados, mas quando são bons passam rapidamente, nos deixando com gostinho de quero mais.

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