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Saudade musicada

katia betina2

Subo na esteira da academia já colocando os fones de ouvido e acessando um aplicativo de música, isso ajuda a distrair. Minha playlist é uma salada, tem de quase tudo. Sou de uma família musical, artística; minha mãe cantava, tocava, pintava, meu avô declamava poesias, as conversas eram cheias de ditos populares e de citações literárias.

Como ouço as músicas no modo aleatório, por vezes o resultado não combina muito bem com a trilha sonora para o momento. Hoje foi um desses dias. “Now we are free”, do filme Gladiador (Taylor Davis), foi a primeira a ser tocada e de cara já me lembrou de uma frase dita pelo protagonista Máximos: “O que fazemos na vida ecoa por toda a eternidade”!

Minha cabeça já deu uma mexida e pensei que seria prudente trocar de ritmo. Tem um monte de outras músicas selecionadas, não precisava insistir naquela. Pensei melhor e resolvi, – Vou encarar!

Acabei fazendo uma visita à infância, eu ainda bem pequena. Minha mãe cantava quando me colocava na cama, com uma voz linda, afinada, mas algumas poucas vezes a escolha das cantigas de ninar não eram lá as mais lúdicas.

Duas dessas músicas em particular nunca esqueci, pois remetiam a uma tristeza de doer. Uma falava de um garoto morto pelo professor e a outra narrava o enterro de uma mãe. Eram: “Canção do Antoninho” e “Mamãezinha tá Dormindo”.

Tão logo eu consegui entender do que elas falavam, nos dias que essas eram as selecionadas, cuidava de ficar imóvel para mamãe achar que eu já havia dormido e silenciar. Isso ecoa na minha cabeça até hoje, mas confesso que ajudou a me modelar.

Só consegui entender o que provavelmente se passava, quando me vi mãe, cantando para Pedro nas madrugadas, acordada e cansada pelo trabalho sem fim, uma daquelas toadas de lavadeira de beira de rio, de melodia triste, repetitiva e absolutamente inapropriada.

Não o fiz por maldade e ela também não. Eram nossas almas espremendo as últimas gotas de coragem de uma rotina exaustiva, apesar dos pedidos de socorro do corpo para descansar.

Música me remete a recordações, a monólogos, a diálogos, (inclusive comigo mesma). Músicas me inspiram, inquietam, distraem quando deito, ajudam na esteira, mas não silenciam minha cabeça.

E assim, mexendo no passado, acabei por lembrar que irá completar 10 anos agora em agosto sem minha mãe, sem me socorrer dos conselhos dela, sem as suas sugestões, caminhando por minha conta.

Não estudei música e nada sei sobre o assunto, talvez por isso escolha ritmos na maioria sem “personalidade”, com solos e refrãos que se repetem, que me fazem supor saber qual o acorde que vem na sequência e creio que entendo o motivo. Sinto-me mais segura na previsibilidade, gostava quando ela cantava pra mim, por isso cantei para Pedro.

Não tenho preferência por intérpretes, idiomas ou estilos. Gosto do que me soa bem ao ouvido, pode ser fora de moda, simplório, posso não entender a letra, não saber quais instrumentos estão sendo utilizados, mas nada disso impede, caso haja sintonia, que meu corpo sinta na pele o ritmo produzido. As vezes repito tantas e tantas vezes uma mesma música, que acabo por aprender parte da letra, mesmo no idioma dos outros, como uma criança que repete o que ouve. Como a criança que fui, que aprendeu com a mãe, para repetir com o filho, não as músicas, mas o cuidado na forma de amar.

“Now we are free” não tem letra para interpretar ou tentar gravar na memória, só tem melodia e uma porta bem grande para um mergulho nas lembranças, nos ensinamentos, nos exemplos, na saudade de uma mãe amorosa.

Troco a música e caio em outra armadilha, a seguinte é uma sinfonia lenta, tranquilíssima e também inapropriada para correr numa esteira.

Mas creio que foi uma escolha proposital do destino. Quase pude ouvir minha mãe a me dizer “olha para frente, não sofra pelo que já passou, comemore o que vivemos juntas e viva o que ainda lhe resta com seu filho e siga ouvindo música, elas têm letras para explicar quase tudo”.

“O que fazemos ecoa na eternidade”, talvez por isso aquelas músicas de ninar tenham sido importantes, me ajudaram a ser quem eu sou, uma pessoa inundada de sentimentos, cheia de medos, sem compreender porque mães morrem e feliz por constatar a poesia que há em deixar de existir e continuar existindo. Assim como minha mãe, que tanto tempo depois ainda me sussurra conselhos ao ouvido.

Agosto 2017


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