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Rituais do cotidiano

Ilustraçãocaminhando na praia

Caminhando na praia vi, ainda de longe, uma mulher executando um ritual. Em pé, com os braços abertos e o rosto em direção ao sol, ela tocou a testa, os olhos, a boca e finalmente, parecia segurar o coração, até que lentamente caminhou em direção a água, repetindo todos os movimentos feitos anteriormente.

Imagino que ali ela fazia algum tipo de oração, de expurgo ao que considerava pecado, pedia em relação ao futuro. Assim somos, seres que acreditam que a adoção de rituais alicerçam uma maior chance de felicidade, por isso ficamos tão confortáveis quando os executamos.

No mesmo local havia uma menina brincando com uma pá, fazendo castelos de areia. Algo em torno de 40 anos separa ambas e como não havia ninguém por perto, imaginei serem parentes próximas, talvez mãe e filha.

Ocorreu-me lembrar de quantos rituais somos feitos entre os castelos que construímos inocentemente na areia até a crença que uma saudação ao sol ajuda a seguir em frente, ainda que seja apenas um balé executado no mar.

Do batizado ao enterro, do aniversário ao casamento, da missa às ondas do reveillon, vamos atribuindo significado, importância social, marcando uma época da vida, somando a rotina, incorporando aos sonhos, caminhando por todos eles, na certeza que assim é que se vive bem. Doce ilusão.

Acontece que mesmo adotando práticas antigas o mundo insiste em mudar, em acontecer à revelia dos desejos e por mais que coloquemos âncoras nas ilusões que nos fazem felizes, elas escorrem e muitas vezes se vão, ainda que preservemos os ritos que julgamos seguros.

Lembrei de uma conversa que tive recentemente com uma amiga sobre casamento, quando comentamos que se a força daquele ritual, que serve para dizermos um para o outro e para o entorno que a partir dali a vida não será mais como antes, não é o suficiente para impactar no comportamento de ambos, dificilmente será possível manter a cabeça, o coração e os dois pés apenas nessa relação, ainda que esse caminhar juntos dure por toda vida.

Os rituais ajudam a acalmar os gritos interiores, mas não conseguem sozinhos realizar os sonhos ou a solucionar problemas. Somos nós os responsáveis por empreender escolhas, por dedicar tempo e esforço para que nossas conquistas se aproximem do que idealizamos e ainda que levantar o rosto para o sol ajude a nos tornar mais serenos, apenas isso não é suficiente para nada.

O mundo mudou, mudou tanto que caso Jesus Cristo voltasse hoje com o comportamento parecido com o que ele adotou quando por aqui viveu, imagino que seria incompreendido até mesmo por quem leu tudo sobre sua vida e cumpre religiosamente o ritual de ajoelhar-se e depositar em suas mãos a esperança num mundo melhor.

Afinal vamos lembrar que ele repartiu o pão como sinônimo de fraternidade, ofereceu a outra face como forma de pregar a paz, esteve ao lado dos necessitados e dos diferentes e os rituais que adotou sempre foram uma consequência das práticas da vida que levava. Talvez hoje fosse considerado um subversivo desqualificado e não tivesse força suficiente para mudar nem o vizinho que dirá a contagem do tempo.

Comemoramos a vida com o ritual religioso do batismo, mesmo que nossas ações cotidianas em nada combinem com as recomendações dos guias espirituais, enterramos nossos mortos com uma cerimônia de adeus, mesmo que não façamos uma única reflexão a respeito do real valor da vida, nossa e do outro.

Os rituais do cotidiano, assim como a mitologia ou conhecimento científico da psicologia, ajuda a viver melhor, mas convém que posamos fazer algum tipo de diálogo interior sobre seus significados, a pura repetição mecânica deles não faz os milagres que desejamos.

Fiquei pensando que atualmente não tenho rituais e isso me apavorou, quem não os tem não vive tranquilo e de tanto pensar que não seria normal que não os tivesse, acabei por perceber que o meu é escondido e silencioso.

Consiste em amanhecer forrando a cama enquanto digo pra mim mesma – Segue, apesar dos castelos desfeitos, da vida não ser como desejou, mesmo que nem todos os sonhos tenham se realizado, que cheia de medos. Segue, você tem um dia inteirinho para tentar tudo outra vez, ainda que não acredite que possa ajudar estender os braços para o sol ou simplesmente ajoelhar-se, segue…

Outubro de 2017 
Katia Betina


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