Cegueira seletiva

ReproduçãoKatia Betina

Na academia que frequento as TV’s de frente das esteiras costumam passar umas programações fitness, que eu nunca presto muita atenção. Não gosto por dois motivos distintos: metade dos corpos que aparece eu acho feio e não gostaria de tê-los e a outra metade eu não conseguiria tê-los e sinto uma inveja danada. Vá entender…

Passa esportes, a maior parte radicais que eu também não olho atentamente, porque sempre acho que vai acabar mal. Penso isso por conta de ter assistido, numa transmissão ao vivo, durante uma prova de levantamento de peso, um atleta partir o braço numa fratura exposta.

O acidente me causou um susto tão grande que nunca mais consegui assistir uma competição dessas, e na TV em frente à esteira que gosto (velho tem essas manias de apego a repetição e a rotina) Cegueira seletiva

Na academia que frequento as TV’s de frente das esteiras costumam passar umas programações fitness, que eu nunca presto muita atenção. Não gosto por dois motivos distintos: metade dos corpos que aparece eu acho feio e não gostaria de tê-los e a outra metade eu não conseguiria tê-los e sinto uma inveja danada. Vá entender…

Passa esportes, a maior parte radicais que eu também não olho atentamente, porque sempre acho que vai acabar mal. Penso isso por conta de ter assistido, numa transmissão ao vivo, durante uma prova de levantamento de peso, um atleta partir o braço numa fratura exposta.

O acidente me causou um susto tão grande que nunca mais consegui assistir uma competição dessas, e na TV em frente à esteira que gosto (velho tem essas manias de apego a repetição e a rotina) tinha na tela um atleta curvado, se preparando para levantar uma barra com pesos bem grandes. Foi o suficiente, não olhei mais.

Passados mais de dez minutos, olho rapidamente para ver se trocou aquele esporte e descubro que a imagem estava congelada, que não mudou, era a mesma que eu havia visto logo que cheguei e ainda que nada haja de interessante para desviar a atenção durante o tempo na esteira, eu consegui a proeza de não enxergar o que estava na minha frente.

Quase na mesma hora que eu constato isso, um colega da academia passa e me pergunta se eu já estava podendo fazer aquele exercício. Eu havia passado uns dias de repouso por causa de uma lesão no joelho. Respondi rapidamente que “não” e apesar dele não ter dito nada, o olhar era de uma silenciosa incompreensão diante da minha equivocada insistência.

Como tempo de esteira demora a passar, tive oportunidade de pensar no que sou, -uma teimosa incorrigível, com grande capacidade de não enxergar o mundo como ele é. E conclui que me utilizo desse subterfúgio para sobreviver a vida real.

Eu não sei se só sou eu, ou se tem mais alguém bobo igual a mim, mas cada vez que presto atenção nos tele jornais ou olho os site de notícias, menos compreendo o mundo a minha volta. As notícias variam desde os “meninos birrentos” de posse de um botão que pode acabar o mundo, até os escândalos dos nossos representantes; nada que preste.

Tem sempre alguém querendo me convencer que tudo está melhorando, que a inflação está contida, que os empregos estão voltando, que a economia se recupera e no dia a dia o que eu sinto é o aumento das dificuldades, água, luz e combustível impagáveis e a pobreza aumentando.

Acreditamos mais nos diversos “milagres” apresentados pela mídia que no feijão com arroz, procuramos os prazeres duvidosos da atualidade e esquecemos que a vida acaba e às vezes rápido demais, exatamente porque escolhemos viver de medo ao invés de esperança.

Hoje acreditamos no que vemos pela internet e duvidamos dos afetos e talvez por isso conhecemos mais depressão, solidão e inveja que qualquer outro sentimento.

Essa nostalgia na reflexão me ocorreu porque conheci um mundo onde era possível ter amigos que nos livrariam de um apuro, que acreditávamos que a felicidade existia (e era um estado de espírito) e principalmente tínhamos o sonho utópico que o amanhã seria melhor. Hoje não…

Quando eu estava saindo da academia, depois de ter pensado nesse tanto de bobagem, vi uma moça com um corpo escultural, cabelo arrumado, bebendo uma garrafinha com um preparado de proteínas e vestindo uma camiseta bem curtinha escrito “Eu amo gin”, numa alusão ao amor pela academia.

Conclui minha reflexão pensando que jamais teria tido mesmo aquele corpo perfeito que tanto invejo, afinal eu nunca tive tempo para aquilo tudo, principalmente depois que me tornei mãe. Prefiro ter o cabelo assanhado e cabeça mais fresca, ficar atenta a balança sem precisar abrir mão de comida de verdade, mas essa vida com ares de normalzinha, só me ē possível graças ao que sou, uma teimosa com cegueira seletiva.

PS: Sabe aquela vontade de não comer carne, de resistir a um risoto de camarão, de não afogar minhas magoas numa mousse de chocolate? Nunca tive…

Janeiro de 2018

Katia Betinatinha na tela um atleta curvado, se preparando para levantar uma barra com pesos bem grandes. Foi o suficiente, não olhei mais.

Passados mais de dez minutos, olho rapidamente para ver se trocou aquele esporte e descubro que a imagem estava congelada, que não mudou, era a mesma que eu havia visto logo que cheguei e ainda que nada haja de interessante para desviar a atenção durante o tempo na esteira, eu consegui a proeza de não enxergar o que estava na minha frente.

Quase na mesma hora que eu constato isso, um colega da academia passa e me pergunta se eu já estava podendo fazer aquele exercício. Eu havia passado uns dias de repouso por causa de uma lesão no joelho. Respondi rapidamente que “não” e apesar dele não ter dito nada, o olhar era de uma silenciosa incompreensão diante da minha equivocada insistência.

Como tempo de esteira demora a passar, tive oportunidade de pensar no que sou, -uma teimosa incorrigível, com grande capacidade de não enxergar o mundo como ele é. E conclui que me utilizo desse subterfúgio para sobreviver a vida real.

Eu não sei se só sou eu, ou se tem mais alguém bobo igual a mim, mas cada vez que presto atenção nos tele jornais ou olho os site de notícias, menos compreendo o mundo a minha volta. As notícias variam desde os “meninos birrentos” de posse de um botão que pode acabar o mundo, até os escândalos dos nossos representantes; nada que preste.

Tem sempre alguém querendo me convencer que tudo está melhorando, que a inflação está contida, que os empregos estão voltando, que a economia se recupera e no dia a dia o que eu sinto é o aumento das dificuldades, água, luz e combustível impagáveis e a pobreza aumentando.

Acreditamos mais nos diversos “milagres” apresentados pela mídia que no feijão com arroz, procuramos os prazeres duvidosos da atualidade e esquecemos que a vida acaba e às vezes rápido demais, exatamente porque escolhemos viver de medo ao invés de esperança.

Hoje acreditamos no que vemos pela internet e duvidamos dos afetos e talvez por isso conhecemos mais depressão, solidão e inveja que qualquer outro sentimento.

Essa nostalgia na reflexão me ocorreu porque conheci um mundo onde era possível ter amigos que nos livrariam de um apuro, que acreditávamos que a felicidade existia (e era um estado de espírito) e principalmente tínhamos o sonho utópico que o amanhã seria melhor. Hoje não…

Quando eu estava saindo da academia, depois de ter pensado nesse tanto de bobagem, vi uma moça com um corpo escultural, cabelo arrumado, bebendo uma garrafinha com um preparado de proteínas e vestindo uma camiseta bem curtinha escrito “Eu amo gin”, numa alusão ao amor pela academia.

Conclui minha reflexão pensando que jamais teria tido mesmo aquele corpo perfeito que tanto invejo, afinal eu nunca tive tempo para aquilo tudo, principalmente depois que me tornei mãe. Prefiro ter o cabelo assanhado e cabeça mais fresca, ficar atenta a balança sem precisar abrir mão de comida de verdade, mas essa vida com ares de normalzinha, só me ē possível graças ao que sou, uma teimosa com cegueira seletiva.

PS: Sabe aquela vontade de não comer carne, de resistir a um risoto de camarão, de não afogar minhas magoas numa mousse de chocolate? Nunca tive…

Janeiro de 2018

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