De costas para o futuro

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Um dia qualquer você entra no supermercado para comprar um lanche, cruza com um desconhecido, troca olhares, risos pelo canto da boca, na saída um cumprimento casual e pronto, aconteceu… ou então, aquela amiga comum junta num mesmo lugar dois estranhos e o frio na barriga anuncia, daqui para frente a vida será diferente.

As paixões começam assim, quase que por magia, não há como explicar e nem é necessário fazê-lo. A cabeça se enche de músicas, poesias, filmes, tudo é motivo para conversar, contar sobre si numa vontade incontida de dizer “sou eu” que você estava esperando, me reconheça.

Dai para frente, principalmente quando somos jovens, não é incomum a relação se fortalecer até o ponto de enxergarmos nos olhos um do outro, os filhos e a família que queremos ter.

Durante muito tempo eu suspeitei que a preguiça fosse a grande culpada do final dessa sensação de plenitude que a vida a dois proporciona. Pensei que esse estrago fosse resultado da Lei do Menor Esforço, aquela que nos coloca na nossa própria zona de conforto, local onde nem sempre o outro cabe.

O que me ocorre pensar por agora, (já construí uma infinidade de alternativas) é que parte dos casais que se formaram acreditando de verdade que eram de encaixe perfeito, nunca foram sequer harmônicos para uma sociedade empresarial, que dirá para o desafio da vida em comum.

Seja por quais razões forem, o fato é que nem todos os pares conseguem viver bem até que a morte os separe e é nesse ponto da encruzilhada que as opções que se abrem são apavorantes, afinal passamos a vida toda ouvindo como sendo única alternativa de realização, “e foram felizes para sempre”, assim no plural.

Quando o destino nos coloca numa situação dessas, teremos à disposição para refletir mais ou menos o que sugiro nesse paralelo: você deseja ir para o SUL, mas por engano pegou o ônibus que segue para o NORTE e só se dá conta de perceber o erro muito tempo depois de iniciada a viagem.

O que fazer? Descer do ônibus, esquecer o tempo perdido e começar de antes do zero? Insistir em continuar, na esperança de mudar a ideia inicial de seguir rumo ao sul? Ou permanecer nesse destino, de joelhos no banco, de costas para o norte, olhando pela janela traseira seus sonhos se afastarem cada vez mais?

Difícil né? Em nenhuma das alternativas há uma opção em que não haja perda, sacrifício, dor, medo ou dúvidas.

Eu nunca soube de fato qual a melhor escolha. No meu “pacote de conceitos” tenho convicções que não asseguram, nem de longe, a possibilidade de não haver uma larga margem para erros.

Com relação aos casamentos costumo dizer que enquanto são possíveis de serem suportados, que o sejam, que só devem ser desmanchado caso se tornem insuportáveis (palavra auto explicativa) e as vezes se tornam.

A realidade interfere favorecendo que a incompatibilidade arrase o que se é e ainda que tenha sobrado muito pouco daqueles personagens que um dia pareceram ser um par ideal, por razões das mais variadas ou sem refletir, optamos por permanecer algemados nessa armadilha, aprumando o leme rumo ao nada.

As separações são sempre difíceis, dolorosas, requerem certo grau de egoísmo, via de regra alicerçam-se em raiva, desilusão, decepção, tristeza ou cansaço, todos sentimentos que dificultam enxergar a realidade com olhos de esperança.

Talvez por isso seja tão comum encontrar pessoas assistindo a vida passar de costas para o futuro, na esperança que haja outras encarnações, tantas quantas forem necessárias para aprender a ter coragem, inclusive a de tentar ser feliz.

Um dia qualquer você se apaixona, um dia qualquer você perde o amor da sua vida, um dia qualquer você morre, é isso… mas eu gosto de pensar que um dia qualquer você pode se apaixonar pela vida, mesmo que seja uma diferente daquela do conto de fadas e não se permitirá dar as costas para os sonhos.

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