Um obstáculo a ser superado

Arquivo Pessoal1

Eu, assim como todas as pessoas que conheceram um pouco da vida do Físico Stephen Hawking, lamentei a morte dele. Eu, assim como muita gente, li Uma Breve História do Tempo. Eu, assim como muitos outros leitores, não entendi quase nada.

Naquela época que li, o Pedro não passava de um sonho a ser realizado num futuro distante. Muitos anos depois, ele já uma realidade e na universidade, descobre com surpresa o tal livro na estante e feliz começa a ler, me dizendo ao terminar, “Maravilha a forma como ele simplificou, como tornou fáceis conceitos básicos”.

Pensei em tomar o comentário como desaforo… eu havia lido o livro na vã esperança de ter repostas, muitas, tantas quantas possíveis, afinal sempre ouvi que a física tudo responde, mas diante da fala dele, preferi optar por duas outras constatações, a primeira que meu fraco são as dúvidas e não as respostas e a segunda que meu filho deve ter sido melhor formado que eu.

Eu saio de casa para trabalhar bem cedo, a ponto de ver um monte de crianças de uniformes escolares nos diversos bairros que passo, em diferentes realidades, trazidas por algum adulto, usando desde os super carrões parados no meio da rua, até simples bicicletas. Acho um espetáculo…

A morte do Hawking me fez pensar na educação e o quão distante essas crianças que eu vejo indo para as escolas estão de uma boa formação e o como isso limita e limitará a construção de um lugar melhor para se viver, afinal tanto quanto de perguntas, precisamos de respostas.

Passei o dia imaginado que parte da genialidade do físico teve relação com o meio a que pertenceu e lembrei que para ajudar meu filho a ser o que se tornou, acompanhei sua formação de perto, como se dizia, pegando o pião na unha…

Tão logo comecei a levá-lo para a escolinha, entendi que por mais cara que fosse a mensalidade, os professores tinham salários muito baixos, e via de regra, eram profissionais com formações limitadas e com dificuldade de acesso à muitas das atividades que expandem a capacidade de aprender e ensinar.

Assim me vi diante de duas alternativas: sentir que cumpria com meu dever entregando ele fardadinho na escola, ou tomar para mim a necessidade de preencher algumas lacunas quando chegássemos em casa.

É nesse instante que a realidade se torna diferente para quem tem mais limitações que as que tive e isso me faz achar que a meritocracia parece uma covardia.

Do mesmo jeito que vejo com satisfação o aumento do número de crianças matriculadas, vejo com tristeza que cada dia menos importância se dá a qualidade do ensino.

Hawking aconselhava olhar as estrelas, ele mesmo as olhou, eu as olhei deitada na grama com Pedro, mas em outros dias líamos juntos, acompanhei as tarefas de casa, ajudei nos projetos, juntei material para as pesquisas, fomos ao cinema, teatro, museus, galerias, sempre ampliando a visão.

Coisas simples, possíveis apenas porque eu tinha um pouco mais de condições financeiras que parte dos professores do meu filho e mais tempo formal de ensino que alguns dos pais, possíveis para todos se o ensino fosse prioridade .

Essa não é a realidade da maioria. Quem vai ensinar nossas crianças a olhar para o céu? Quem vai procurar a estrela Stephen? Quem vai despertar a curiosidade científica que busca respostas? Quais condições oferecemos aos professores?

Fico imaginando quando iremos entender que não é simplificando currículos, eliminando matérias que ensinam a pensar, cerceando a curiosidade de entender o que ainda não foi respondido, limitando conhecimento, que melhoraremos a vida futura.

Eu quase não sei física, eu não entendi o livro como sendo simples, meu mérito está em saber que conhecimento não se constrói apenas com genialidade ou espontaneamente, está em saber que necessita de condições e dedicação, talvez por isso o livro tenha sido mais fácil para Pedro.

Dentre as verdades que Stephen Hawking afirmou, uma em particular gosto muito, quando diz “que os buracos negros não são tão negros como os fizemos parecer. Eles não são as prisões eternas que já foram considerados”, e sendo possível fugir deles, tomo para o Brasil a esperança de que tenhamos uma educação melhor, onde até física seja uma possibilidade.

Afinal, a vida dele, um cérebro brilhante que não se intimidou por estar preso numa cadeira de rodas, serve como exemplo para acreditar que mesmo os grandes obstáculos podem ser superados.

Fonte: Katia Betina

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