Amor se esconde nos detalhes

Bob, Bob, Bob… que enrascada que eu me meti.

Amor se esconde nos detalhes
Amor se esconde nos detalhes

Eu faço umas opções equivocadas e depois me coloco a lamentar os resultados desastrosos. Eu podia ter escolhido um cãozinho recém nascido, de temperamento previsível, que logo cedo eu começasse a conquistar o afeto incondicional, mas não… abri a guarda pra gostar de Bob, que já tem passado, já vem com marcas e tem preferidos.

Bob entrou na minha vida meio acidentalmente, em parte porque eu gosto de brincar com o perigo, em parte porque não há como prevenir afetos. Eu já o conhecia de “ouvir falar”, ele era “famoso” na família, já conhecia algumas das suas aventuras e quanto mais sabia dele, mais me dizia para resistir e não conhecê-lo pessoalmente.

Até que finalmente foi inevitável, ele chegou desconfiado, com as pernas zambetas, com olhos quase escondidos por trás do pelo, com um rabão que ajuda a entender se ele está feliz e, principalmente, se aborrecido.

Quando eu me vi estava as voltas com ele ocupando de fininho os espaços do coração. A princípio eu fiquei ressabiada, cuidando de não me envolver muito, já havia experimentado sofrer nas despedidas. Bob me faria reviver um monte de emoções intensas, um amor à primeira vista.

E pensei: “melhor ter Bob uma vez por semana que nunca”. TER Bob?? Começa aí meu aprendizado, eu não o terei, ele passa por mim, me enche de alegria, se entrega quase sem reservar, mostra os dentes por entre um rosnado silencioso, me encanta com seus chamegos, mas “ter” não, ele não me permite tamanha invasão, nossa relação haverá de ser sempre cuidadosa.

Bob tem um coração amoroso, voluntarioso, brincalhão e autêntico. Chora se deixa alguém para trás, se alegra porque me encontra, fica radiante quando percebe todos juntos, gosta quando retornamos para perto dele, já estabeleceu o que pode ou não acontecer, impõe um monte de regras.

Ele é peludo e não gosta de petshop, daí eu tive a brilhante ideia de que faríamos nós mesmos o papel de cuidar do pelo.

Comprei escova apropriada e iniciei o ritual de pentear e desatar os nós. Entretida, escovava as costas, o rabo, as patas até que finalmente, quando fui arrumar as orelhas, pude enxergá-lo de fato. Bob me olhava de lado, mostrando parte dos dentes, como que a me dizer “cuidado ou eu mordo”.

Pensei, esse é o Bob, por mais que entenda que é um cuidado amoroso, está sempre disposto a causar um estrago na relação.

Fingi que não entendi, mas ousei menos nas escovadas e fui dizendo para ele que não tenho medo de cara feia, apesar de ter, foi quando me dei conta, que até mesmo afeto, só é aceito como tal, se o outro o reconhece como sendo assim, uma boa lição para a vida.

Ele tem sido um reservatório de sabedoria, Bob tem me feito reconceituar amor, por mais bem que eu queira (e quero) a ele, devo aceitar que nunca se entregará sem reservas, mas foi quando terminei com a escova, que ele levantou, se sacudiu e desceu da minha perna balançando o rabo, que percebi, com grata surpresa, que ele também havia apreendido algo comigo.

Mesmo que tenha tido vontade ele não me mordeu ou avançou me intimidando, entendeu que eu também tenho meus limites, marcas, passado e os respeitou. Não colocou em risco nosso afeto mútuo por um arroubo de intolerância, se colocou como parceiro de compreensão.

O amor se esconde nos detalhes, reside nos nossos reencontros festivos, na aceitação das partidas, na valorização da reciprocidade, no respeito ao coração do outro e principalmente na compreensão mútua dos nossos limites. Eu podia ter feito outras escolhas, mas acabei por escolher o Bob e isso não haverá de ser um desastre, nunca.

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