O Paralelepípedo e a democracia

Arquivo Pessoal

É possível que você lembre que houve, mais ou menos uns 20 anos atrás, um projeto da Prefeitura de Maceió que propunha a troca do pagamento do IPTU pelo calçamento da rua.

Era um projeto onde a população, caso se interessasse, podia fazer adesão voluntária e a partir daí havia um trabalho de esclarecimento da proposta. No caso de consenso entre os moradores daquela rua, o IPTU seria revertido para essa finalidade.

Desde que iniciou essa conversa eu não gostei muito. Pedro era pequeno, a rua de barro acabava sendo uma tranquilidade, ele andava de bicicleta, jogava bola, brincava livremente, tudo isso em frente de nossa casa e em relativa segurança.

O fato é que acabamos conversando a respeito desse assunto sem ter tido o cuidado de evitar que Pedro ouvisse, então, quando ele soube que haveria uma reunião para votar a aprovação (ou não), da pavimentação, ele chegou pra mim e disse “mamãe eu quero a minha rua de barro.”

Foi um momento bem interessante para formação cidadã dele. Fomos, ele e eu, para a reunião e depois de esclarecidas as regras, na hora da votação, todas as falas que se sucederam eram favoráveis à pavimentação, até chegar na nossa vez.

Foi quando eu iniciei anunciando que Pedro seria o responsável em expor a opinião da família. Ele levantou-se e colocou a posição dele, “na rua de barro quase não passa carro e quando passa é devagar, é um bom para brincadeira, por isso voto não”.

Com um único voto contrário fomos derrotados e ele saiu muito insatisfeito, perguntado se não podia para deixar só a frente da nossa casa de barro.

Essa noite tivemos uma longa conversa, expliquei para ele que a vontade particular não podia prevalecer a qualquer custo. Que a vida adulta e o mundo civilizado tinham no respeito a opinião da maioria uma conquista de civilidade.

Que ele procurasse entender que com o barro tínhamos uma poeira danada, lama quando chovia, dificuldade de transitar nos buracos e que se perdíamos por um lado, havia um ganho coletivo por outro.

Durante os dias em que a rua estava sendo calçada não podíamos entrar com o carro na garagem, parávamos nas paralelas e vínhamos andando para casa, mas em compensação ele pode escalar as montanhas de areia, brincar com o traço e ter muita companhia para conversar, já que mais parecia um fiscal de obra.

Vivenciou que em qualquer das opções sempre há alguma coisa boa.

Depois da rua pronta ele arrancou “um tampo de pé” chutando bola em cima da pedra, se machucou mais de uma vez, tinha menos liberdade, precisou adaptar parte das brincadeiras, mas aprendeu uma lição importante para toda vida, o respeito a opinião da maioria.

Aqueles paralelepípedos deram a ele uma espetacular aula de democracia, esse tesouro que não notamos na rotina o quão precioso é. Que tem como definição a capacidade de assegurar que as decisões serão adotadas em favor do coletivo, permitindo que haja o direito a livre expressão, a exemplo da dele que era contrária.

Os vizinhos ouviram o voto de Pedro respeitosamente, expuseram suas opiniões com o cuidado de falar para ele também. Ninguém foi agressivo, ninguém brigou, ninguém foi desrespeitoso, continuamos amigos e ele querido por todos.

Aquela noite, aquele episódio, aqueles paralelepípedos ajudaram a formar meu filho um cidadão melhor, que compreende hoje que o interesse comum é maior que o dele individualmente. Ganhamos todos, inclusive eu que também não queria a rua calçada, tornei-me grata pelas lições, mais que pela comodidade de uma rua calçada.

Saudade do tempo em que duro eram os paralelepípedos, que havia tolerância ao contraditório, civilidade com a opinião oposta, respeito, inclusive aos diferentes e seus diferentes olhares.

Setembro de 2018

Katia Betina

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