Tomei para mim a vergonha do outro

Arquivo Pessoal

Pedro, ainda bem pequeno, brincava na rua quando o coleguinha que estava com ele chamou sua atenção usando a seguinte frase para se referir a uma menina que ia passando: Olha o cabelo daquela negrinha…

Eu soube do acontecimento porque a babá que cuidava dele ficou tão surpreendida que me contou dizendo, “Dona Katia, o Pedro olhou e não entendeu o que havia de estranho, ele não é racista”.

Ao mesmo tempo em que eu tomava um susto pelo acontecido, a vergonha que senti foi diminuída pelo conforto de saber que tanto ele, como ela própria, não reconheciam em si uma índole preconceituosa.

Todos temos dentro de nós um “anjo e um demônio” a nos guiar nas decisões e são as conquistas civilizatórias que favorecem que nossas escolhas sejam de maioria razoável e por isso esses ganhos precisam ser preservado e incentivados.

Pense comigo, eu (e provavelmente você também), tenho vontade de pular no pescoço de quem me insulta e apertar até não poder mais. Por que não faço? Porque sei que não é com violência que iremos resolver a vida. Como sei? Tendo aprimorado os conceitos de civilidade.

Fomos, por conta dos últimos acontecimentos, expostos a falas e práticas racistas, mas a minha certeza absoluta é que essa não é a crença das pessoas em pleno século XXI, por isso tenho me dito que não preciso deixa de amar muitos dos meus afetos porque esteve contido no ”pacote da opção” que fizeram uma fala tosca de depreciação de outro humano.

E é esse o convite que faço, o da compreensão de que haja sempre, em qualquer governo ou para qualquer governante e inclusive para nosso dia a dia, a necessidade de que exista uma atenta e responsável vigilância, que objetive a preservação de conquistas, nela contida a manutenção dos nossos “demônios” domados.

Digo isso porque sou da opinião de que para controlar o impulso desse “demônio interior” que carregamos, precisamos manter uma relação afetuosa e cuidadosa com o seu opositor, o “anjo interior”, de forma a fortalecê-lo.

Se me perguntarem qual das mazelas mais perversas pelas quais a humanidade já passou, e olhe que são muitas, eu tenderia a citar a escravidão como sendo a maior delas. A simples ideia de considerar um negro menos humano pela cor da pele é de uma perversidade incompreensível e pré-histórica.

Perder ou ganhar uma competição, seja qual for, é resultado natural de qualquer disputa, ter as diferenças de opinião como sendo enriquecedoras e a convivência entre diferentes como conquista, faz parte do universo maduro e sadio, mas não considerar como imprescindível para a paz o respeito ao humano que habita no “irmão” não tem cabimento e não pode ser permitido.

Que saibamos manter fechada as “portas do inferno” no que se refere as maldades possíveis nas relações humanas, dentre elas o racismo, a porção negra que carrego no sangue não me torna leniente, ou inferior, me torna melhor e isso não pode ser esquecido.

Lembrar do acontecimento na infância do Pedro (prerrogativa de quem tem boa memória) é apenas um dos exemplos das vezes que tomei para mim a vergonha que é do outro.

Para compensar, também não esquecerei jamais da generosidade das manifestações de acolhimento e afeto que recebi, tanto dos que comungam com as minhas preferências, como de muitos dos que estavam do outro lado da “trincheira”, quando do anuncio do resultado da disputa eleitoral, é confortante saber de amigos que souberam preservar a humanidade conquistada ao longo da existência como ser civilizado que nos tornamos na caminhada.

O mesmo afinco que uso para vigiar meus demônios, usarei para vigiar os demais. Nossa mistura de “raças” é um tesouro que não pode e não deve ser questionado.

Outubro de 2018

Katia Betina

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