Uma vida de detalhes

Arquivo Pessoal

“Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”, lembrei dessa música quando peguei o livro “Confesso que Vivi” de Pablo Neruda, que eu li há uns 30 anos. É um livro autobiográfico, que inicia de forma arrastada, difícil de vencer as primeiras páginas.

Meu apartamento ē no último andar do prédio, acima dele só tem a área descoberta do salão de festas. O condomínio precisou trocar o piso de toda a área de lazer e para isso contratou-se uma empresa, mas quando a proteção de impermeabilização antiga foi retirada para a colocação de uma nova, choveu…

Desnecessário dizer que tive problemas de vazamento. Uma chateação, a água caindo na “cabeça” não chega a ser um motivo de comemoração, mas por conta desse contratempo o apartamento precisou ser pintado e é sempre uma alegria renovada olhar tudo arrumadinho.

Na hora de colocar as coisas de volta no local certo, fui limpar os livros. A cada vez que os manuseio, visito o passado e dessa vez não foi diferente.

Os livros que estão lá foram todos lidos, mas tem uma pequena parte deles que eu não lembro da história, diferente da maioria, que sou capaz de contar tudinho, ou até repetir uma frase.

Me perguntei, “qual a diferença que há entre eles para ser assim?”

Nos livros que consigo lembrar, enxergo influências deles nas minhas escolhas, vejo onde houve alguma intervenção naquilo me transformei.

E nessa viagem, olho para mim e descubro o quão distante estou do que planejei que seria durante aquelas leituras, em alguns casos acabei por ser uma pessoa pior que imaginei, mas tem uma transformação que aconteceu comigo, que eu gosto.

Entender que aquelas histórias contadas em verso e em prosa têm dores maiores que as minhas e que o fato de ter uma vida comum demais, insuficiente para fazer uma biografia, é bom.

Na visita ao que fui, enxergo o quanto de ansiedade havia naquela menina leitora, que emendava um livro no outro na ilusão de que ali estavam todas as respostas.

Não sabia eu naquela época que os maiores aprendizados estariam contidos nos silêncios, na paciência, no prazer de ter o meu filho no colo, nas noites de lua, na companhia dos cães da família, ou em simplesmente aceitar uma goteira como possibilidade de renovar as paredes.

Uma vida de detalhes, sem glamour e sem excessos.

De volta ao presente descubro que, caso eu tivesse sido do jeitinho que queria, até podia ter uma biografia interessante publicada, mas talvez não tivesse tanto o que comemorar, foi a simplicidade do cotidiano que me ensinou o valor das coisas possíveis.

Sou de personalidade teimosa e consegui passar as primeiras páginas do livro do Neruda, li avidamente, mas somente agora, nesse passeio ao passado é que consigo compreender o que queria dizer ao confessar que viveu, que as rotinas daquele jovem provinciano, às voltas com chuva e insetos, teriam sido mais fáceis que a vida de celebridade.

Nos livros biográficos que li, conheci a realidade dos ilustres, soube de que matéria são feitas as pessoas famosas, mas só agora na maturidade, vendo a vida já sem pressa e com mais calma, não lamento pelo que não fui.

No monte de livros que li tem também a biografia autorizada de Coco Chanel, que inicia com ela dizendo “Pronto meu caro, celebridade ē isso, a solidão…” definitivamente eu não seria uma personagem tão interessante quanto ela.

A vida é uma aventura sem contrato estabelecido com final nenhum, mas nos permite passar por ela com leveza, desde que não nos falte músicas, poesias ou prosas, e isso vale para todos, inclusive para Neruda e Chanel.

Fevereiro de 2019

Katia Betina

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