Comissários e professores

Passei uns dias de férias e andei de avião e sempre que estou em um deles, me surpreendo com a perseverança com que aqueles comissários mostram os procedimentos de segurança. Dessa vez, inclusive, a mocinha chegou a dizer “mesmo que você já tenha ouvido, por favor, preste atenção” e eu prestei… na esperança de enxergar alguma novidade.

Não vejo muita utilidade em nada daquilo, mas tem duas orientações, em particular, que ficam rodando na minha cabeça por dias e dias.

A primeira delas é quando se fala “Em caso de despressurização, máscaras individuais de oxigênio cairão automaticamente à sua frente. Puxe uma delas para liberar o fluxo, coloque sobre o nariz e a boca, ajuste o elástico e respire normalmente, auxilie crianças ou pessoas com dificuldade somente após ter fixado a sua”. E eu que não acredito que nada disso faça a diferença numa real necessidade, fico procurando sentido naquela orientação.

Nessa máxima de colocar a máscara primeiro na gente, eu me pergunto se seríamos realmente capazes de abrir mão do “primeiro eu” para ajudar ao outro.

Pois não é que hoje eu fui surpreendida, na paralisação dos professores e estudantes contra o corte de verbas para educação. Li que instituições particulares de ensino, tanto superior, quanto fundamental e médio, pararam as suas atividades em solidariedade ao ensino público.

BINGO… nem tudo é desesperança…

Eu não tenho conhecimento para discutir orçamentos, déficit ou desempenho econômico, mas julgo que consigo entender, num discurso claro, que fale de números, que apresente argumentos, sem piadas, sem provocações e sem Power point de bolinhas, a diferença de corte e contingenciamento, mas quando um dos chocolates “contingenciados” ē comido, confesso minha burrice

Mesmo quando não concordo com alguns argumentos, costumo respeitar a opinião que não vem com frases chulas e com insinuações lunáticas, mas vamos combinar, estamos num período de franca ebulição de afirmativas excêntricas, tem sido difícil debater.

Voltando ao assunto do voo, a outra orientação é a seguinte: “em caso de pouso forçado na água, o assento das poltronas é flutuante”. Não conheço ninguém, nunca vi nos noticiários, nunca soube de alguém encontrado vivo porque se agarrou ao assento.

Não sei porquê, mas na vida real estou me sentindo num avião embicado para um pouso na água, sem saber como me salvar no assento flutuante…

Essa maneira franca de falar, tão em moda, tem pelo menos uma vantagem, conseguiu unir os de cá e os de lá, os de baixo e os de cima, os menos e os mais letrados, todos a favor da educação, inclusive a formal, aquela que é feita nas escolas.

No passado já disse que acho que o voo ficaria mais interessante se aquelas comissárias ensinassem a usar o lenço, afinal elas fazem milagres com aquele paninho no critério elegância. Gosto da elegância, inclusive a de conseguir argumentar sem baixarias.

E aproveito para revelar um segredo, minha maior crença ē a educação, acredito que ela nos conduzirá de forma segura a um melhor destino, tenho certeza que ela diminuirá a distância entre a primeira classe e a classe turística, e mais, que sou mais uma idiota útil que continuará a sonhar com um Brasil de brasileiros que sabem ler de carreirinha.

Meu respeito aos comissários pela perseverança com que transmitem informações de segurança, inclusive para incrédulos, e minha mais sincera homenagem aos professores, por não desistirem de transformar o mundo num lugar mais fraterno e melhor.

15 de maio de 2019

Katia Betina

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