Entenda a importância da embaixada brasileira nos EUA

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A possível nomeação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) – filho do presidente Jair Bolsonaro – quebra uma tradição do Itamaraty em selecionar somente diplomatas de carreira e de longa experiência para ocupar a embaixada do Brasil em Washington.

O G1 ouviu professores de relações internacionais que apontaram por que a embaixada brasileira nos Estados Unidos é considerada uma das mais estratégicas para o Itamaraty:

  • Longa tradição na diplomacia entre os dois países
  • Grande poder econômico e militar norte-americano
  • Influência dos EUA nas Américas
  • EUA têm a maior comunidade brasileira no exterior

Entenda abaixo cada um desses pontos

Tradição diplomática de Brasil e EUA

Brasil e Estados Unidos têm relações diplomáticas desde 1824, quando o governo norte-americano reconheceu a independência. Naquele ano, o imperador D. Pedro I indicou José Silvestre Rabello para o cargo de “encarregado de negócios” em Washington.

Somente em 1905, no governo do presidente Rodrigues Alves, a representação brasileira nos EUA foi elevada à categoria de embaixada – a primeira no mundo. O primeiro a ocupar o cargo foi Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo. Desde então, 30 homens ocuparam o cargo.

Os professores ouvidos pelo G1 explicam que as relações entre os dois países costumam ser amistosas. Nem mesmo estranhamentos no governo militar de Ernesto Geisel (1974-1979) – devido a denúncias sobre violações de direitos humanos no Brasil – ou na presidência de Dilma Rousseff (2011-2016) – após uma crise relacionada a espionagem – minaram a amizade entre Washington e Brasília.

“O histórico das relações entre Brasil e EUA variavam de amistosas a muito próximas. A rigor, o governo brasileiro não era considerado ‘aliado’ pela Casa Branca, mas o país participou da Segunda Guerra, por exemplo, ao lado dos norte-americanos”, explicou Tomaz Paoliello, professor de relações internacionais da PUC/SP.

O bom relacionamento e a importância do EUA nos cenários político e econômico levam o Itamaraty a, historicamente, selecionar os diplomatas mais graduados ao cargo de embaixador brasileiro em Washington. É o que explica Carlos Gustavo Poggio, coordenador do Núcleo de Estudos de Política Externa dos EUA (Nepeu).

Tamanha importância da embaixada em Washington leva diversos diplomatas a considerarem o cargo de embaixador nos EUA como um dos mais importantes na carreira – junto aos de ministro das Relações Exteriores e secretário-geral. “Tradicionalmente, todos têm de estar altamente qualificados”, afirma Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

Poder econômico e militar

Os Estados Unidos têm a maior economia do mundo e estão à frente do poder militar mundial em diversas áreas – inclusive tecnologia. Até poucos anos atrás, os EUA representavam o maior parceiro comercial do Brasil. Hoje, a China detém esse posto.

Luiz Augusto de Castro Neves, ex-embaixador do Brasil em países como China, Japão e Paraguai, destaca a importância da proximidade com órgãos multilaterais nos EUA. Ele cita as sedes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), ambas em Washington.

Além dos organismos internacionais, o embaixador precisa ter acesso ao establishment político dos Estados Unidos – ao próprio presidente, ao secretário do Tesouro, por exemplo.

Até pela importância da questão econômica, o professor Tomaz Paioliello pondera que a diplomacia tradicional tem perdido espaço nas negociações econômicas para ocupantes de cargo técnicos.

Recentemente, a aproximação entre os governos acelerou a inclusão do Brasil na lista de aliados prioritários extra-Otan pelo governo de Donald Trump – decisão anunciada na visita de Jair Bolsonaro à Casa Branca.

Na prática, a medida significa que o país terá prioridade na compra de equipamentos e tecnologia militares norte-americanos e poderá, inclusive, participar de treinamentos.

Influência dos EUA nas Américas

A embaixada do Brasil em Washington também representa o país na nação mais influente nas Américas. Apesar de os EUA terem mais poder relativo sobre as Américas Central e do Norte, a Casa Branca também vê os países sul-americanos dentro do que chama de “Hemisfério Ocidental” – que é diferente do conceito clássico de Ocidente.

O professor Tomaz Paioliello explica que o poderio continental dos EUA nas Américas não se compara com outras potências ocidentais – nem mesmo o Canadá, país rico, ou economias emergentes como o México e o próprio Brasil.

Comunidade brasileira nos EUA

Estima-se que mais de 1 milhão de brasileiros vivam nos Estados Unidos. As representações brasileiras no país prestam serviços como emissão de passaportes, atendimento a emergências envolvendo cidadãos nacionais e até o envio de funcionários para visitas a presos – sem intermediar diretamente, entretanto, a relação do brasileiro com a Justiça local.

Alguns desses brasileiros residem nos EUA de maneira clandestina, sem visto ou com o documento expirado. Recentemente, Trump endureceu a política migratória, e as autoridades norte-americanas devem iniciar operações para deter e expulsar estrangeiros em situação irregular nos próximos dias.

Normalmente, embaixadas não repassam dados de cidadãos nacionais às autoridades dos Estados Unidos – até como uma forma de proteger os próprios compatriotas. Na visão do professor Juliano Cortinhas, a indicação de alguém ainda mais próximo de Bolsonaro – e, portanto, alinhado a Trump – pode colocar em risco essa tradição.

O que é preciso para se tornar embaixador?

A legislação brasileira determina que o chefe de missão diplomática passe a receber o título de embaixador após aprovação, no Senado, do nome indicado. Para isso, a Lei nº 11.440/2006 estabelece os seguintes requisitos:

  • Que o nome seja escolhido dentre os Ministros de Primeira Classe ou, excepcionalmente, Ministros de Segunda Classe. São os cargos mais altos da diplomacia brasileira;
  • Em outros casos excepcionais, pode ser nomeado qualquer brasileiro nato maior de 35 anos e “de reconhecido mérito e com relevantes serviços prestados ao país”.

O banqueiro Walther Moreira Salles (1912-2001) ocupou o cargo de embaixador do Brasil nos EUA duas vezes: em 1952 (governo de Getúlio Vargas) e 1959 (Juscelino Kubitschek).

De acordo com informações do Instituto Moreira Salles, embora ele não tivesse percorrido a carreira diplomática, o brasileiro viajava rotineiramente para os Estados Unidos para negociações do Brasil com entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Fonte: G1

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