O desvirtuado mundo de Oz

Semana passada o filme “O Mágico de Oz” completou 80 anos de lançado, eu gosto de cinema e em algum momento da minha vida, não sei quando, assisti a saga da menina Dorothy e do cachorrinho Totó, vivendo uma aventura colorida naquele mundo imaginário.

Aprendi a gostar de cinema com meu avô, que ensinou para minha mãe, que ensinou para mim. Esse era um assunto recorrente na família e mesmo que eu não estivesse entendendo do que falavam, aquele diálogo adulto conquistou meu coração de criança.

Eram outros tempos, eu sonhava em completar 14 anos, porque quase só havia filmes para quem tivesse mais que essa idade, o que me desobrigaria de mentir na portaria, correndo o risco de ser “barrada” (gosto de pensar que pequenos deslizes fazem parte da história de outras pessoas também).

O medo de ser descoberta, apesar de grande, não era maior que o desejo de assistir aos filmes que eu havia conhecido pelo trailer, ouvido falar dele no almoço, ou visto no anúncio nos jornais com cheiro de tinta.

Com o tempo fui descobrindo que havia sinopse em revistas, mais adiante comecei a ler os críticos e assistir aos programas nos telejornais dedicados aos lançamentos cinematográficos e suas curiosidades, dessa forma aprendi a escolher quem ouvir e a ter curiosidade para ir cada vez mais ao cinema.

Assim fui lentamente sendo conquistada para uma relação sólida de “afeto” e de “cumplicidade” com a telona, mas uma novidade tem me preocupado, como estamos todos com vozes públicas por causa da internet, nesse ultra equivocado tradicional conceito de comportamento adequado, suspeito que o cinema possa estar correndo riscos de ser avaliado apressadamente.

Ponho-me a imaginar o que poderia ser dito a respeito do O Mágico de Oz, caso algum desavisado, com tempo livre para entrar no cinema, resolvesse contar o que viu, sem ter a necessária sensibilidade para caminhar naquela “estrada de tijolos amarelos”.

Penso que ficaria assim: “A absurda estória de uma menina órfã que deseja ir além dos limites, correndo o risco de ser castigada e cair no horizonte, que acaba sendo transportada por uma tempestade enviada pelo demônio, que a conduz para um mundo alternativo, numa mentira que incentiva a desobediência.”

Sigo imaginando, “Desrespeitosamente ela veste azul e branco, impróprio para uma moça de bem, e mesmo recebendo um sapatinho de rubis, continua desobediente e não fica a espera que um príncipe a encontre calçadinha e vai em busca de um mágico.”

E mais… “Ela acredita em um mundo diferente, porque não presta atenção aos avisos de perigo enviados pelo wataasp e só não é pior, porque crer que o esse mágico irá levá-la para o caminho de casa, no entanto ela, inafortunadamente, encontra com seres perigosos, tais como: um homem de lata que perdeu o coração, um espantalho que no lugar do cérebro só tem palha e um leão covarde sem serventia.”

Conclui escrevendo, “A trama só é válida porque mostra uma alternativa de escapar dos problemas existentes, causados pela bruxa má e pela administração desastrosa da fazenda dos tios, nos EUA.”

Com tanta “informação” disponível, todos viramos críticos e se não soubermos onde encontrar a quem ouvir e dermos crédito para qualquer um, com esse argumento eu não teria me sentido motivada para assistir ao filme.

Cabe a mim fazer a escolha de ir ou não ao cinema, cabe a mim escolher em quem acreditar para indicações. Jamais me sentiria confortável em delegar a um burocrata que assumisse essa função, sem ter a mínima ideia se ele tem pelo cinema a mesma paixão que meu avô teve, que minha mãe teve e que me ensinaram a ter.

Censura nunca foi solução, subverter a ordem e produzir filmes considerados inapropriados não resulta em desajuste para sociedade e sim no treinamento para tolerância e para entender a magia, que é contar uma história com imagens, textos e silêncios.

Para quem como eu, considera o cinema um espaço quase religioso, receio que a imposição de temas pré-escolhidos deixe o mundo mais pobre. O Mágico de Oz é um dos imperdíveis clássicos mundiais, lindo, poético, inovador, que bom que pude assistir no escurinho, com glamour e com pipoca.

Agosto de 2019

Katia Betina

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1 comentário

  • Djalma says:

    A censura a lá ditadura não resolve os problemas morais e éticos da sociedade. Daqui a pouco estaremos queimando livros novamente.

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