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Os mortos-vivos do crack agonizam na praça

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Não há clínica suficiente no Brasil para internar toda essa gente viciada em crack, mas deveria haver. Isso sim é que tem que ser feito agora e não apenas ampliar o atendimento dos Centros de Apoio Psicossocial – CAPS, como quer o tímido plano do Governo Federal (de combate, prevenção e tratamento) lançado para encarar o problema. É o primeiro passo sim, é bonitinho, mas de boas intenções o inferno está cheio e as ruas lavadas de sangue de gente inocente. O plano de combate ao crack deveria ser emergencial para conter uma epidemia, uma peste, uma praga.

Esse projeto não deverá resolver o problema nem a médio prazo. Imagina quantos menores morrerão assassinados, quantas pessoas serão roubadas, quanto tráfico será realizado até que ele venha virar programa, ser adaptado pelos governos estaduais e municipais e depois disso ainda tem de ser posto em prática, etc. Não parece uma emergência mas é. O crack é um serial killer solto na vida, correndo na frente da polícia junto com os traficantes, à espreita da próxima vítima que é o filho do pobre, da classe média e o filho do rico.

Antigamente a gente só via mortos-vivos em filmes de vampiro. Hoje em dia eles estão por toda parte. Nos sinais de trânsito, perambulando maltrapilhos à noite pelas ruas, vivendo de subempregos como a venda de garrafas ou papelão. Implorar por uma moedinha e cometer pequenos furtos são o trabalho da maioria dos viciados desprotegidos de família, sem recursos financeiros ou apoio governamental. Antigamente as pessoas eram esmolés porque não tinham dinheiro. Havia mais dignidade nisso. Hoje os esmolés do vício são ousados, insistentes e agressivos. Há aqueles que não viraram esmolés porque ainda tem uma casa mas venderam do carro ao botijão de gás para comprar droga. Tem aqueles que a família abandona porque não aguenta tanto sofrimento. Mas há os que prostituem até a mulher em troca de umas pedrinhas da "galega", como é chamada a pedra de crack.

Quem pega uma pedrinha pela primeira vez para curtir, geralmente, termina enclausurado no vício, numa ânsia sem fim de fumar outra, outra e mais outra.São vítimas os menores que se metem no tráfico para vender a droga. Ficam viciados e terminam mortos porque consomem a venda e acabam sem dinheiro para pagar. São usados pelos traficantes como “avião” (transportadores da droga do ponto de venda até o consumidor) porque não são presos. Estão no nicho dos traficantes, que estão infiltrados pelos bairros de Maceió e invadindo municípios alagoanos.

O crack é uma metástase que se alastra por todo o Brasil e chegou aqui: incrivelmente, a ex-pacata Alagoas (exceto pelo seu passado histórico de crimes políticos) está assombrada pelos uivos dos vampiros do crack que agonizam em praça pública; a ex-pacata Alagoas está horrorizada pelas estatísticas estratosféricas de assassinatos. Matar é normal. Nunca se matou tanta criança e tanto jovem nesse Estado. Se estão matando no interior, na capital chega a ser deprimente. Basta visitar diariamente os sites jornalísticos ou assistir aos programas televisivos feitos para a grande massa, pasmem, veiculados no horário do almoço – a hora do vômito. Dificilmente não há um morto estendido, pelas ruas da pobreza de Maceió. Também nunca se viu tanta criança e tanto jovem viciado, perdido, sem perspectiva de futuro como agora. Paradoxalmente, a polícia alagoana nunca trabalhou tanto. Não dá conta. Não dará.

MACONHA
No final dos anos 70 e início dos anos 80, fumar maconha era um escândalo. Uma mãe que tinha o filho maconheiro, tinha uma vergonha imensa; era a desgraça da família. O cara era execrado pela sociedade e ia preso cometendo grave crime. Mesmo que fosse pego só com uma "baga", o que restou do cigarro fumado. Quem fumava, porque sempre se fumou, independente da lei ou da moral, colocava colírio para ficar bonitinho na fita e saía por aí. Mas o fato é que a maconha não destruía tão ferozmente nossos jovens como hoje o crack o faz com seus impactos definitivamente destruidores.

Sem generalizações, a classe baixa, média e a classe alta foram tocadas pelo crack, que fez todo mundo perder a classe. O crack beijou na boca os filhos da burguesia e aí montou-se um romance, uma paixão sem final feliz. Tem filho de político viciado em crack, tem artista de hollywood viciado em crack, tem um amigo da gente, um vizinho, um parente viciado em crack.

A mãe de um amigo meu, que antes era viciado em maconha e agora é em crack, disse a mim que era feliz e não sabia. “Antes, meu filho fumava maconha mas conseguia ter uma vida social normal. Trabalhava, saía com os amigos, se alimentava bem, vivia rindo, se divertia, curtia a vida. Hoje, com o crack, abandonou o comércio que tinha, não se alimenta, emagreceu demais, a pele ficou macerada, acinzentada, as maçãs do rosto estão caídas… Agora vive na minha porta pedindo dinheiro, que nunca é suficiente. Com a depressão pós-uso, ele fica nervoso, com olhos de louco, agressivo, se enerva com qualquer coisa. Me trata mal, quebra os vidros da janela atrás de dinheiro como se fosse um marginal. É um verdadeiro inferno. Queria saber quem apresentou essa droga desgraçada a ele”, afirmou a pobre senhora. A “febre” hoje é o crack.

CRACK: ENLOUQUECEDOR
Em Maceió, é de uma tristeza sem fim, esperar no trânsito o sinal verde. O sinal da praça do Pirulito é um exemplo. São jovens sujos com cara de cadáveres querendo dinheiro. Se você parar depois das 22h para comer um sanduiche ou tomar uma cerveja na praça da Faculdade, no Prado, verá a incrível a quantidade de menores perambulando como indigentes procurando pelo chão um pedaço de crack – que eles sabem que não está lá. O vício faz com que eles surtem e procurem o que nunca houve naquele lugar. Mesmo que eles não tenham fumado naquela área, mesmo assim procuram. É enlouquecedor.

Infelizmente, não vejo solução imediata. Isso passa pelo tráfico, problema que o Brasil não consegue resolver desde sempre. Não consegue resolver problemas menores como, por exemplo, a densidade demográfica do sistema prisional. Os presos são tratados como bichos engalfinhando-se nas celas. Será por falta de dinheiro para construção de presídios e implantação de políticas modernas? Paradoxalmente e sistematicamente pipocam escândalos de políticos corruptos e suas maravilhosas verbas desviadas e nunca resgatadas. Esse é o nosso país: paradoxal. Claro que o tráfico é um problema internacional. Internacionalmente estamos perdendo para os traficantes mas nossos filhos não tem nada a ver com isso. O crescimento do tráfico é proporcionalmente maior que as soluções apresentadas pelo poder. Cobremos que o lento desenrolar da política brasileira adiante o passo. Durma com um barulho desses.

Fonte: É Jornalista

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