À beira mar

Um dia desses peguei um Uber e fui batendo papo com o jovem motorista que por acaso me informou que morava afastado da muvuca da cidade numa das praias mais bonitas do nosso  estado. Ele continuou a conversa dizendo que ele e a esposa tomavam conta de uma enorme casa de praia  à beira mar, cujo dono era um milionário estrangeiro que só vinha duas vezes  por ano. Eles então viviam na maior mordomia com a luxuosa casa inteiramente à disposição do jovem casal -desde já, confesso ter sentido uma pontinha de inveja.

 Oportunamente relatei a história de um amigo meu que sonhava ganhar na Mega-Sena para poder morar em sua casa de praia, com uma rotina bucólica e tranquila que, só depois percebera, seria exatamente a mesma que o seu caseiro levava hoje. O motorista do Uber riu e  concordou, mas confessou que essa vida enjoava e que por isso ele havia retomado os estudos  e tornou-se também motorista de Uber.
-Para você ter uma ideia eu nem aguento mais olhar para o mar na minha frente e deve ter mais de oito meses que não piso nem na areia! -revelou o jovem rapaz.
  Engraçado isso, mas talvez tudo tenha  a ver com o momento da vida de cada um. Enquanto meu amigo rala o dia inteiro e sonha em um dia parar tudo e ir morar em sua casa de praia à beira mar, mas que para isso precisaria de uma pequena fortuna para levar uma vida bem mais simples, o tal motorista já levava essa mesmíssima vida, mas lutava arduamente para sair dela. Nesse caso, a compensação justa desejada para uma eventual aposentadoria veio antes de todo o resto -por isso o enjoo e abuso do mar; por isso a necessidade de trabalhar e estudar e fugir daquela vida monótona de um nababo à beira mar; até porque a tal casa não era dele, assim como a vida que ele levava -retrato típico de quem começa pelo lado contrário  do tabuleiro: o fim -ou a chegada -como queiram.
 Confesso que também desejo um lugar bucólico e manso para viver quando resolver um dia desacelerar. Mas, não vou esperar ganhar na Mega-Sena -pretendo eu mesmo me estruturar e simplificar minhas necessidades a fim de conseguir esse intento. Mas, diante da história do motorista fiquei pensando: será que vou enjoar também? Acordar sem pressa e sem compromisso, passar o dia zanzando, pensando, pescando, lendo, escrevendo, ouvindo música, jogando conversa fora, cuidando da manutenção da casa, cochilando, caminhando, praticando algum esporte, tomando banho de mar, relaxando, fazendo castelo de areia, comendo, bebendo, namorando, meditando, assistindo TV, fuçando no celular, olhando as estrelas, se espreguiçando…uááááá!!!
 Só em imaginar, confesso que meu projeto para o meu futuro me pareceu um tanto quanto aborrecido. Mas, não seria bem melhor que o corre-corre que é minha vida já há tantos anos? Será que onde estivermos estaremos sempre um pouco insatisfeitos? Será que precisamos sempre de um pouco de adrenalina e estresse para nos estimularmos e nos sentirmos vivos? Bem, dessa altura em que me encontro não sei precisar a resposta. Uma vida curtida, apreciada e mansamente vivida me parece deliciosa demais para não valer a pena, mas o motorista me confessou que realmente era demasiadamente enfadonha e que ele não aguentava mais. Bom, pretendo não mudar em nada meus planos, então caso eu enjoe de pescar, cochilar, nadar e tomar vinho numa espreguiçadeira olhando as estrelas no céu, quem sabe eu não possa tornar-me motorista de Uber e voltar  a estudar?
 Algo como um reinício pelo início -afinal, para descansarmos precisamos primeiro nos cansar.

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