Cenas do passado recente I ou O vigia

Cenas do passado recente I

ou O vigia

Um dia desses avistei, já à noitinha, uma cena típica do passado recente. Chamou-me atenção a quixotesca figura sentada num banquinho, altas horas da noite e que até pouco tempo era tão comum, mas que a modernidade que trouxe consigo a quase inevitável violência, tratou de apagar do nosso dia a dia – ou da nossa noite a noite…

Diminuí então a velocidade do carro e fiquei observando o solitário vigia ali sentado, encurvado com seu indefectível rádio de pilhas, companheiro da madrugada adentro e um discreto porrete encostado no poste. Então, imediatamente, lembrei-me de quando haviam vigias nas ruas -geralmente senhores aposentados- com seus apitos, porretes e rádios de pilha, a guardarem as casas dos mais abastados e que, por muito tempo,compuseram o cenário urbano das nossas cidades; até que seus patrões foram mudando-se aos poucos para condomínios fechados e prédios de apartamentos, ou buscaram alternativas mais tecnológicas como a vigilância eletrônica, o que fez com quepraticamente se extinguissem das calçadas esses jurássicos profissionais. Até então, os vigias eram uma das soluções de segurança mais eficazes, junto com cachorros e cacos de vidro em cima do muro. Mas, obviamente, estou falando de uma época que os ladrões roubavam galinha e bujões de gás – os vigias então, com seus porretes e apitos, eram intimidadores contra esses meliantes de outrora. Os ladrões pés-de-chinelo pulavam os muros morrendo de medo de topar com um vigia ou mesmo um barulhento cachorro pequinês – totalmente diferente dos bandidos que hoje invadem as casas dispostos a trocar tiros com a polícia. Hoje, portanto, os coitados dos vigias não teriam a menor chance contra meliantes armados e quadrilhas organizadas que invadem as casas para sequestrar, saquear ou até coisa pior.

Ao ver aquela figura agasalhada, sentada e curvada sobre um banquinho, lembrei-me dos da minha rua. Nós, moleques então, andávamos em grupo por toda redondeza e tínhamos sempre uma relação dúbia com os ditos cujos – quando passávamos pelas calçadas os cumprimentávamos cordialmente sempre com um “…noite!” ou um “…êba!”, empostando o máximo possível a voz para parecermos maisadultos. Contudo, quando estávamos sem fazer nada, entediados e com os hormônios a mil, costumávamos provocá-los com o clássico canto bradado em verso:

“O galo canta

O macaco assobia… – O resto do verso quem sabe, sabe, quem não sabe vai ficar sem saber…

Então inaugurando esse tema “Cenas do Passado”, faço essa singela homenagem a esses dinossauros que praticamente foram extintos, não pela queda de um meteoro, mas pela força bruta e cruel da violência que mostrou que para proteger-se, é preciso bem mais que um apito e um porrete.

“O galo canta

e o macaco assobia

o tempo implacável

acabou com o vigia…”

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