Equívocos da ação na cracolândia – SP

O plano é errado tanto na sua concepção, quanto no modo como é executado.

Deve-se atentar, primeiramente, à fragilidade desse plano, pois parte do pressuposto que o sentimento de fissura do usuário em abstinência ocasionará seu interesse em buscar tratamento, ignorando os demais efeitos, como outros problemas de saúde ou reações violentas à abstinência.

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Ainda que essa política agressiva gerasse busca por tratamento, a cidade de São Paulo não teria clinicas suficientes para atender a alta demanda de usuários, pois carece de estrutura adequada para tanto. E pouco se faz a esse respeito.

Diversos agentes do Poder Público também têm reiterado que a migração dos usuários a outras regiões será combatida, concluindo-se, então, que a operação será estendida para outros pontos da cidade.

Transparece, dessa forma, a adoção de uma estratégia que somente expulsa os usuários de um lugar a outro, continuamente, em detrimento da oferta de alternativas reais de reabilitação que respeitassem verdadeiramente a dignidade dessas pessoas e visassem, de fato, recuperar sua saúde.

A execução do plano é reflexo dos problemas em sua concepção. As autoridades afirmam que o crack é uma questão de saúde pública. A prática, entretanto, prova o contrário. A ação policial ostensiva, planejada e detalhada, reprime o usuário e contrasta com a nebulosidade do plano de ação referente à recuperação da saúde dessas pessoas.

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O alvo da polícia, que seria o tráfico, acaba sendo o usuário.

A eficácia no combate ao tráfico é mínima e o desrespeito aos usuários, enquanto seres humanos, enorme.

A simples e violenta retirada dos usuários de crack do espaço público não resolve o problema de uma população já desamparada, que não tem outro lugar aonde ir e que sofrerá forte repressão policial para somente então, e em visão equivocada, perambular em busca de uma ajuda incerta.

Enquanto aumenta o apelo social para soluções mágicas para o problema do crack, todas as outras formas de drogas estão circulando em nossa sociedade de forma mais ou menos livre.

A cracolândia não é apenas um problema de drogas.

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É um problema social e urbano.

Os indivíduos que habitam estes espaços são os mesmos que já foram expulsos de outros espaços sociais, são os mesmos que não receberam atendimento de saúde mental quando precisaram, são os mesmos que foram expulsos da escola, são os mesmos que freqüentam as filas do desemprego e do assistencialismo. São os mesmos que passaram pelo caminho terrível da mendicância.

E por que não, são os mesmos que se confundem com o crime e a contravenção.

O espaço urbano que eles freqüentam não é um lugar qualquer. Ele é um espaço limítrofe.

Muito perto, muito central.

Está próximo das sedes de boa parte da administração pública.

Ele está bem servido do ponto de vista dos serviços urbanos como escolas, polícia, hospitais, transporte.

Ele é um espaço urbanizado, perto de cinemas, casas de cultura, espaços de lazer. Mas ao mesmo tempo, ele está num lócus que também foi deixado de lado por administrações sucessivas.

Centro degradado, com prédios abandonados, com serviços públicos estagnados, num lugar em que aos poucos os moradores vão abandonando e que o administrador não mais se interessa. Ele também é apenas um cantinho, um lugar mal planejado, um canto de praça, uma rua que as pessoas já não arriscam passar… A limpeza pública tirou do cronograma dos serviços.

A polícia não sabe o que fazer com ele porque, claro, nem sempre é fácil definir o que é crime, contravenção ou qualquer outra ação “não-criminal”.

Mas as cracolândias ficam à nossa vista, perto do olhar, os carros passam, os transeuntes mudam de calçada… A cidade encontra novas dinâmicas e novos centros são erguidos.

As classes mais abastadas fogem da convivência incômoda, vão morar em condomínios fechados, em lugares mais afastados e nobres.

O centro e estes lugares esquecidos são deixados a sua própria sorte. E este processo pode durar décadas.

Todas as cidades têm suas cracolândias.

Todas as cidades têm estes espaços à margem.

Todas as cidades “não” conseguem administrar esses espaços públicos inóspitos.

Essa é a nossa triste realidade.

 

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