Leite fresquinho

Muitas coisas são bem melhores quando imaginadas que quando vividas. A realidade é capaz de destruir sonhos e programas maravilhosos, transformando-os em verdadeiros micos -bem, ao menos para mim.
Minha filha estava super empolgada com a perspectiva de ir à fazenda do meu cunhado no fim de semana. Ainda mais com a propaganda que ele lhe fizera de tomar leite fresquinho, tirado das tetas da vaca, ali na hora, de manhã cedinho.
-Pai, o tio disse que a gente põe um copo cheio de Nescau e açúcar e que é uma delicia!
Ô meu Deus, que beleza que é a infância. Creio já ter adorado esse tipo de programa, mas o passar dos anos vão trazendo, além de dores, rugas e cabelos brancos, uma certa intolerância e precauções exageradas.
Gosto de fazenda,  mas não sou a pessoa mais apaixonada do mundo pela vida no campo. Considero-me urbano demais para passar mais de quatro dias imerso numa fazenda, por mais bela e agradável que seja, como é o caso desta do meu cunhado. Mas, como sei que meus filhos adoram, vou e me divirto bastante. Sabia do que nos aguardava naquela ordenha matinal e insalubre, mas não quis melar o seu sonho; aliás, muita coisa melada ainda nos aguardava naquele curral.
Sou madrugador de nascença, então não tive dificuldade alguma em me acordar às 5 da manhã naquele dia tão aguardado. O friozinho de Canhotinho convidava-me a permanecer um pouco mais sob as cobertas, porém  havia prometido acordar minha filha para tomar leite do peito da vaca junto com seus primos pequenos. Levantei-me preguiçosamente, mas ao olhar as camas ao redor, todos haviam se levantado e partido para o bendito curral.
Troquei de roupa apressadamente, calcei um par de Havaianas e disparei a fim de testemunhar a alegria em seu sorriso -isso eu não podia perder.
Havia chovido um pouco durante a madrugada, então o chão estava lamacento e escorregadio. Ao avistar o curral e a movimentação de crianças próximo das vacas, apressei o passo. Então senti meus pés afundarem um pouco. Vi minar por entre meus dedos dos pés, uma lama viscosa e escura, fazendo minha sandália desaparecer assim como minhas unhas. Logo em seguida percebi que, infelizmente, não era lama. “Ai ai, começou!” Pensei. Mesmo assim segui pisando em direção do meu destino, ouvindo um “Plof, Plof” a cada pisada.
Ao chegar, o cenário era de filme de terror; porém todos com o sorriso nos lábios.
– Pai, vem pra cá ! – Gritou animada minha filha ao me ver.
Como poderia descrever tal cena? Uma vaca imensa toda suja de lama, com um vaqueiro sentado num banquinho, umas cinco crianças com copos nas mãos, ávidos para tomar o leitinho da vaca, e todos, absolutamente todos, melados de lama-cocô-de-vaca dos pés a cabeça. Diante da minha cara de espanto, meu cunhado destilou toda sua delicadeza:
-Deixa de frescura, rapaz!
Então começa o espetáculo. As mãos do vaqueiro estão  mais sujas que pau de galinheiro e ele alisa  as tetas da vaca antes de começar a ordenha. ” A vaca está meio sujinha, né?” Falei tentando ser cuidadoso sem ser chato. Porém , ele esclareceu todo orgulhoso que iria limpar. Então passou sua mão suja  numa água suja, dentro de um balde sujo para limpar as tetas sujas. “Deixa pra lá” pensei.
Minha filha foi a primeira sortuda a ter seu copo pego pelo vaqueiro e aproximado dos peitos da vaca. De repente ele dá um empurrão e um grito “Sai!”. Era um bezerro quase encostando a boca nas tetas que lhe eram de direito. O filme de terror segue com moscas zunindo em volta de praticamente tudo. E tome o rabo da vaca a chicotear seus próprios flancos, na tentativa de afastar os insetos.
O esguicho poderoso do leite no copo, fizera surgir uma deliciosa espuma. Ao mesmo tempo a vaca lançava no chão um não menos potente esguicho de xixi, fazendo respingar em quem estivesse perto. Eu inclusive, que senti seus pingos quentes nas canelas. ” Ô que delicia”- pensei.
Ao receber de volta o copo espumando de leite com achocolatado, minha filha mexeu com a colher e tomou gulosamente.
-Toma pai, tá uma delicia. Tão quentinho….
E estendeu-me o copo já pela metade. Claro que está quentinho, minha filha. Mais precisamente uns 37 graus, exatamente a temperatura dentro da vaca, onde o leite estava até poucos segundos -aliás, a mesma temperatura do xixi que respingou em minhas canelas. “Quero não, minha filha, pode tomar”. Ela insistiu novamente, até eu ser obrigado a virar aquela secreção mamária da fêmea do Bos Taurus Taurus goela abaixo, mas não sem antes escutar de novo meu cunhado a retrucar:
– Deixa de frescura, rapaz!
Enquanto eu bebia, senti-me envergonhado ao perceber  o vaqueiro olhar para mim, provavelmente me achando mais fresco que o bendito leite.

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