Perdas e ganhos

 

Acordo e olho para o relógio: 4:32. Lembro-me imediatamente que fui dormir ontem tentando manter-me acordado para assistir um jogo decisivo do Flamengo contra o Botafogo. Tentei, tentei, mas acabei sucumbindo ao sono implacável, embora estivesse desejoso de assistir à peleja até o final. Fui dormir no intervalo quando ainda estava zero a zero, resultado que levaria a disputa para os pênaltis.
Porém, agora eu estava ali, acordado após mais de quatro horas do encerramento do tal jogo. Milhares de pessoas já sabiam do resultado -menos eu. Outros flamenguistas àquela hora já teriam experimentado o doce sabor da vitória ou o gosto amargo da derrota. A resposta estava a um metro de mim, guardada no meu celular que repousava sobre meu criado mudo. Mas eu, por temor, relutava em obter essa informação. O dia nem começara e eu estava ali prestes a receber uma informação que poderia ou não alterar, ainda que levemente, o meu humor. Era quase uma chave seletora a qual eu não estava a fim de ligar.
Então uma pequena ansiedade começou a querer avolumar-se em minha mente. Pensei que nada que eu fizesse naquele momento iria mudar o que já estava feito -mandingas supersticiosas de torcedor. O Flamengo já estava classificado ou não, bastava apenas virar-me um pouco, pegar o celular e em poucos segundos saberia o desfecho daquele disputado jogo ao qual acompanhei até o intervalo.
É tão estranho valorizar algo que não lhe diz respeito e que não mudará sua vida em absolutamente nada. Trata-se de obter uma informação que não fará a menor diferença em meu mundo real -como um resultado de um exame ou de uma prova, por exemplo. Mas, quis o destino que um dia lá na infância, eu tenha feito a escolha de torcer para um determinado time do Rio de Janeiro e agora ele estava na minha lista das coisas mais importantes dentre as menos importantes -fazer o que?
Bom, enchi-me de coragem e peguei o celular. Acessei o site de notícias, não sem uma certa ansiedade a apertar-me o peito. Meus dedos deslizavam tensos em busca da preciosa informação, até que…
Bem, a felicidade é algo completamente banal e efêmero. A informação positiva gerou um brevíssimo rompante de contentamento o qual já havia se dissipado no minuto seguinte. Todo aquele drama por algo tão fugaz -pensei depois. Mas, a vida é mesmo assim: buscamos pequenos prazeres que perdem a importância assim que os obtemos. Já a tristeza não, ela dura um pouco mais do que deveria e nos acompanha por mais tempo do que recomendaria o bom senso -isso quer dizer que a derrota do Botafogo, perdura um pouco mais em seus torcedores que a doce vitória e classificação do meu time.

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