Poder da mente

Chego cedo ao clube para jogar tênis antes de todo mundo, numa manhã ensolarada de domingo. No caminho da quadra passo pela frondosa mangueira que lá existe  carregada de deliciosas mangas-espada que estão entre as melhores que já comi, diga-se de passagem. Como ninguém havia chegado ainda, começo a procurar uma vara para tirar alguma manga a fim de fazer um providencial desjejum matinal. Porém, não encontro a tal tetéia,  o que me deixa levemente frustrado. O chão limpo e varrido deixa claro que não encontrarei um única pedra para testar minha pontaria. Então sento-me num banco com um olhar piongo para as mangas lá no alto que estão do jeito que eu gosto: verdes com uma pequena parte amarelada -sinal  que as mesmas estão “de vez”, como nos referimos às frutas que não estão nem verdes, nem maduras.

  Começo a olhar fixamente as mais suculentas  e quando me vejo, estou repetindo inconscientemente algo que eu fazia na minha infância no quintal de casa com as belas mangueiras que lá existiam: tentando fazer com que as mangas caiam usando apenas a força da minha mente. É isso mesmo que você leu, meu caro leitor; quando criança, por diversas vezes tentei derrubar as  mangas que estavam lá no alto da mangueira apenas com o poder da mente e pelo que  me lembre, nunca obtive um único  sucesso. Se hoje parece-me absurda a ideia, é bom lembrar que estava na infância; época recheada de magia e ilusões, onde homens voavam com uma capa no pescoço e subiam na parede feito lagartixa. Ali, naquele tempo , acreditava que se olhasse fixamente,  com muito treino e concentração , seria capaz de mover objetos apenas com a força da mente -a famosa e jamais comprovada telecinésia. Quantas vezes tentei mover o lápis à minha frente na carteira escolar durante uma aula chata e maçante? Quem nunca tentou fazer com que o telefone de casa tocasse e fosse a paquera da vez, apenas usando o poder da mente? Acreditava piamente ser possível sim, assim como por alguns instantes nesta manhã de domingo  sob a árvore do clube.
Todavia, se o tempo é o senhor da razão, ele também é um destruidor de ilusões. O passar dos anos me fez ver que não existe um canal direto entre o desejo da mente e o objeto desse desejo -nosso corpo tem que ser o instrumento, a ligação ou a ferramenta entre a “força da mente” e a manga “de vez”, o lápis na carteira escolar ou a mensagem do WhatsApp tão esperada. Se a mente deseja, nosso corpo tem que mover-se e providenciar sua realização -seja subindo na mangueira, tocando o lápis com o dedo ou mandando uma mensagem do tipo “oi sumida”.
  Para os que ainda acreditam que “sim, é possível realizar todos os nossos  desejos desde que acreditemos nos nossos  sonhos” -frase predominante nos manuais de autoajuda, eu retruco com um sonoro “depende”. A manga não cairá apenas com meu olhar fixo emanando ondas mentais que irão romper a fina haste que faz a ligação da fruta com a árvore -o que pode acontecer é uma enorme coincidência temporal resultado da combinação de vento e a força da gravidade. Se pensar assim torna-me um niilista, que seja. O resto de magia que havia em mim dissipou-se ao longo dos anos -nada vem de graça se não arregaçarmos as mangas (da camisa, é claro) e subirmos na mangueira ou então  providenciarmos uma vara comprida. Se antes acreditava em forças invisíveis e poderes mágicos,  hoje cada vez mais acredito em dedicação, atitude e empenho -o resto fica no campo das ideias, relativamente descolado do mundo real.
Na verdade, os anos me fizeram descobrir que existe sim uma verdadeira  “força da mente” -com ela somos capazes de superar uma dor, realizar um sonho, alcançar um objetivo ou até mudar o mundo. Tudo na verdade começa no campo das ideias para finalmente extrapolar para o mundo real.
  Então foi bem isso que eu fiz naquela manhã ensolarada: utilizei minha força da mente, não para subir na árvore frondosa, mas sim para abafar e esquecer o meu desejo por uma daquelas saborosas mangas. Ao meu ver esse é o verdadeiro poder da mente que desenvolvemos ao longo dos anos com muito treinamento: o controle consciente dos nossos desejos. Serve como desculpa para preguiçosos, mas também como ferramenta para se viver em paz. Afinal, assim como a manga lá no alto, isso é sinal de que, nesse momento, eu também esteja ficando “de vez”.

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