Raso e profundo

 

Num domingo ensolarado, chega o homem com guarda-sol e cadeira de praia numa mão e um pequeno isopor na outra, para por alguns instantes e observa o maravilhoso mar da Barra de São Miguel, antes de pôr os pés na areia. A maré baixa era convidativa para relaxar e fazer exatamente o que desejava naquele instante. Caminhou lentamente até a beira do mar e ali fincou sua sombrinha, tal qual um alpinista no cume do Everest. Em seguida, armou  sua cadeira e sentou-se preguiçosamente nela fazendo questão de manter os pés submersos na água calma e cristalina. Pôs os óculos escuros e olhou lentamente de um lado para o outro, como se fizesse uma foto panorâmica com os olhos e num suspiro sorriu para si mesmo -“Finalmente” – pensou. Então, abriu seu isopor e de lá tirou uma cerveja long neck estupidamente gelada imersa sob as cubas de gelo. Abriu-a com destreza e, finalmente, deu um longo e delicioso gole – Ahhhhhh!!! – suspirou, como se tirasse uma tonelada das costas.
Ficou ali por um longo tempo, onde o mundo parecia perfeito – uma confluência de pequenos prazeres que lhe conferiam um desejado momento de plenitude – para que mais que isso? – pensou.
Estava de olhos fechados e sorriso nos lábios quando, subitamente, percebeu uma sombra na frente do seu rosto que lhe fez abrir os olhos. Reconheceu de imediato o amigo que lhe sorria falando animadamente seu nome – “Pronto, lá se vai meu sossego.”- pensou com desânimo.
Trocaram cumprimentos e palavras animadas, porém ficou ainda mais chateado quando o tal amigo sentou-se do seu lado, quebrando de uma vez seu aguardado momento de plenitude. Conversa vai, conversa vem e seu amigo lhe faz um inesperado convite:
 – Levante a bunda dessa cadeira e vamos nadar lá no fundo!
Ele não acreditava naquilo que acabara de ouvir. Dentre todas as propostas possíveis, talvez aquela era a que menos ele desejava realizar naquele instante.
– Nadar no fundo? – balbuciou sem esconder a surpresa e o desconforto.
– Sim, meu amigo. Tenho aqui dois óculos de mergulho. Vamos nadando devagar olhando o fundo do mar, passando pelo canal que tem lá no meio, até chegarmos aos arrecifes lá adiante. Você vai gostar!
A proposta de repente pareceu-lhe até tentadora – afinal, lhe seria algo novo explorar mais a fundo o fundo daquele mar que ele conhecia tão bem, mas sempre ali da beirinha. Porém, rapidamente a curiosidade evaporou-se.
– Sinceramente, estou sem vontade! – respondeu, tentando ser o mais honesto possível. Mas o amigo insistiu:
– Vamos lá, rapaz. Tem muita coisa para se ver e sentir.  É uma sensação deliciosa que você vai experimentar e, no final, irá finalmente conhecer um lado novo e diferente de algo tão familiar. Tenho certeza que lhe fará bem! – insistiu o amigo.
 O homem então pensou por alguns segundos e falou taxativo:
– Meu amigo, muito obrigado pelo convite, mas eu vou ter que declinar. Reconheço que a proposta é realmente interessante, mas confesso que estou muito bem aqui onde estou. Não desejo ir para o fundo – ao menos nesse momento não. Daqui sou capaz de ver meus pés sob a água cristalina e ter um certo controle sobre quase tudo ao meu  redor, estando no rasinho. Se eu adentrar-me nesse mar, for até o fundo, perceber o mar tornar-se escuro e chegar até as pedras lá adiante, talvez nunca mais eu me sente aqui nessa cadeira da mesma forma novamente. Deixa eu vê-lo a essa distância mesmo e assim imaginá-lo do meu jeito, sem o risco dessa aventura. Repito: nesse momento, estou tão bem onde e como estou, que prefiro ficar aqui no raso. Mas, agradeço-lhe imensamente o seu desafiador convite!
E então despediram-se com um caloroso aperto de mão e o homem desejou boa sorte ao disposto mergulhador, para  finalmente poder voltar ao seu desejado momento. Mas, obviamente que aquele convite fustigou-lhe por longos minutos até finamente pegar no sono.
Certo dia, fui a uma confraternização de uma escola de psicanálise levado por minha esposa. Chegando lá, sentei-me numa mesa grande repleta de…psicanalistas, é lógico, e acomodei-me já com uma taça de vinho na mão. Então, comecei a conversar com duas senhoras conhecidas minhas  sobre diversos assuntos; até que finalmente uma delas me fez um inesperado convite:
– Por que você não vem estudar aqui com a gente?
A outra concordou e insistiu:
– É mesmo, eu acho que você leva jeito e acredito que vai adorar!
– Você verá como é bom passar a conhecer os mistérios da mente humana e entender nossas reações e emoções. Você passará a enxergar o mundo de outra forma sob as lentes da psicanálise! – empolgou-se a outra.
Com um sorriso nos lábios e uma expressão boba no rosto, tomei um gole de vinho enquanto tentava processar aquele convite interessante e desafiador. Olhei para uma e para a outra senhora, vendo em seus rostos uma certa expectativa sobre minha resposta. Então finalmente falei:
– Olha, acho a ideia super interessante. Gosto bastante desse assunto, adoraria aprofundar-me nesse tema e tenho certeza que seria uma transformação profunda na minha vida. Mas, confesso a vocês uma coisa: está tão bom daqui onde estou, sob o guarda-sol e com os pés na areia. Se eu adentrar-me nesse mar, for até o fundo, perceber o mar tornar-se escuro e chegar até as pedras lá adiante, talvez nunca mais eu me sente aqui nessa cadeira da mesma forma novamente.
Sim, declinei o interessante convite tal qual o homem da Barra de São Miguel. Nesse atual momento, prefiro contemplar que explorar. Prefiro desconhecer que conhecer. É o reconhecimento pragmático daquele velho ditado que “a ignorância é uma benção”. Prefiro preparar-me para eventuais percalços munido de vários  pequenos momentos de plenitude, que viver buscando compreender a complexidade da mente humana e suas intrincadas vicissitudes.
Elas ainda insistiram, mas perceberam que eu estava decidido a permanecer na escuridão:
– Ah, que pena… Tenho certeza que você iria adorar! – lamentou um delas.
– Tenho certeza que sim! – concordei honestamente – quem sabe num outro momento?
Confesso que fiquei a pensar por alguns minutos na tal proposta. Todo conhecimento é provocante e transformador, sobretudo sobre algo tão essencial e desafiador como pretende a psicanálise. Mas, escolher não ir tão a fundo também era um tipo de sabedoria. Continuo curioso sobre esse conteúdo e vários outros também. Todavia, nesse dia de sol com a maré baixinha, tudo que eu quero é o sossego do rasinho, sentado na cadeira de praia com os pés afundados na água cristalina.
Boa sorte aos dispostos mergulhadores.

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