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Crônicas e Agudas por Walmar Brêda

Walmar Coelho Breda Junior é formado em odontologia pela Ufal, mas também é um observador atento do cotidiano. Em 2015 lançou o livro "Crônicas e Agudas" onde pôde registrar suas impressões sobre o mundo sob um olhar bem-humorado, sagaz e original. No blog do mesmo nome é possível conferir sua verve de escritor e sua visão interessante sobre o cotidiano.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

Vinho Dom Bosco

Sou capaz de lembrar de cada vez que tive acesso pela primeira vez aos pequenos e grandes luxos que faziam parte de outro mundo que não o meu. Provei um vinho “seco” de qualidade razoável na casa de um amigo e logicamente detestei, acostumado que era com os açucarados “Dom Boscos” da vida – já estava com uns vinte e poucos anos e levei ainda mais uns tantos para finalmente começar a apreciar e por fim gostar de verdade. Na primeira vez que dirigi um carro automático eu já era pai de família e trabalhava há muitos anos. Viagens internacionais, bons shows, belos resorts, champanhe importada, grandes museus, ótimos restaurantes e carro zero, tudo meio recente e saído do próprio bolso, com um tanto de suor (meu) e sangue e saliva (dos outros).

Pois bem, vejo essa geração do século XXI de meus filhos e seus amigos que conheceram ainda muito jovens quase tudo que para mim fora um misto de descoberta, conquista e muitas vezes com uma pitada de encantamento, e me pergunto: como será seu futuro? O que moverá uma geração que terá muito pouco para conquistar e se encantar ou, o que é pior, o que farão caso não consigam acompanhar pelas próprias pernas o mundo mais sofisticado ao qual tiveram acesso tão cedo?

Lembro que nós, da minha geração, éramos todos meio pobrinhos. Os meninos vestiam-se de forma simples, bebiam cerveja comum e bebidas baratas e malhavam muitas vezes com uns pesinhos no quintal de casa. As meninas muitas vezes tinham um visual meio riponga, compravam adornos nas feirinhas de artesanatos, raspavam as pernas com barbeador e tinham no máximo um colarzinho de ouro bem fininho que ganhara da avó.  As sobrancelhas e cabelos eram bem naturais e contávamos nos dedos as que haviam viajado para a Disney aos 15 anos.

Os meninos de hoje vestem-se com roupas caras, só bebem cerveja puro malte, whisky importado e malham em academias sob efeito dos suplementos da moda. Já as meninas, se arrumam como modelos para irem a um barzinho, com roupas caras, sofisticadas e muitas vezes apelativas. Usam várias joias e embelezam-se apenas no salão, do cabelo ao dedinho do pé -muitas viajam desde criança e só querem caipirosca de for com vodka Absolut.

Um amigo de meu filho posta suas idas semanais para bons restaurantes, com seus pratos caros e bebidas idem -tudo isso aos vinte anos(!).  Pergunto: tanta sofisticação entregue de bandeja pelos pais aos seus rebentos logo cedo, não anteciparia o refinamento dos seus desejos, negando-lhes a justa e necessária recompensa material oriunda de suas próprias forças? Qual a consequência disso?

Como falei no início, tive e tenho acesso hoje a um monte de coisas que muitas nem sabia existir. E olhe que era um jovem típico da classe média da época. É claro que a realidade hoje é completamente diferente – vivemos num mundo muito mais sofisticado e metido a besta. Não dá para criar nossos filhos com a severidade, austeridade e pobrismo da minha época, onde levávamos para casa as bexigas de uma festa de aniversário, abríamos os presentes com cuidado para aproveitarmos os papéis das embalagens e fazíamos pipoca em casa e levávamos escondida para o cinema.  Mas, quando um pai presenteia o filho com primeiro carro sendo um Audi, ele naquele momento estabelece um mínimo de padrão de consumo automotivo ao rebento, que poderá ser uma benção, mas também uma maldição.

Bem, cabe a nós desta geração, estabelecermos os limites para cima e para baixo e botarmos nossa mola para fazermos dos nossos filhos homens e mulheres ainda motivados, já que conheceram a sofisticação do supérfluo tão cedo – porque senão, meus amigos, nós pais teremos sido responsáveis por uma geração inteira de dândis mimados e luxentos, que podem virar deprimidos crônicos ante suas eventuais frustrações, ou então dispostos a tudo, tudo mesmo, para manterem-se no mundo das coisas que conheceram cedo sem mérito e sem encantamento.

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