Mãe de gêmeo assassinado volta a denunciar coação; delegado nega

O vídeo onde a mulher reconhece os supostos responsáveis pelas agressões foi divulgado nesta segunda-feira (21)

Delegado Fábio Costa, gerente de Recursos Especiais (GRE/DEIC)

Após formalizar denúncia contra os investigadores do caso da morte de seu filho, Danilo, de 7 anos – assassinado de forma brutal no dia 11 de outubro, no bairro do Clima Bom, em Maceió – a dona de casa Darcinéia Almeida reconheceu durante depoimento à Defensoria Pública Estadual (DPE) os delegados que a teriam ameaçado e torturado durante cerca de nove horas, em reinquirição na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Imagens do depoimento prestado no último dia 16 de outubro foram divulgadas nesta segunda-feira (21).

No vídeo, a mulher aparece em uma sala, relatando a um defensor público sobre as práticas que teriam sido adotadas na noite do dia 15 de outubro, durante seu depoimento. Ela afirma que os agentes acusaram-na de acobertar o crime, que teria sido cometido por seu companheiro – padrasto da vítima – José Roberto Morais. Questionada sobre quem seriam os responsáveis, a mulher reconheceu dois delegados, em fotos mostradas pelo defensor em um monitor.

O primeiro a ser reconhecido foi o delegado Bruno Emílio, responsável pelo inquérito. O segundo foi o coordenador da Divisão Especial de Investigações e Capturas (DEIC), delegado Fábio Costa. A este, Darcinéia Almeida atribui as acusações de ameaças de choque e de incendiar sua residência.

“Ele tinha bigode e barba. Ele era alto”, disse ela em seu depoimento. Apontando para a foto do delegado Fábio Costa, afirma: “Foi ele que estava me torturando, colocando o fio na energia e o outro segurando um negócio e apertando o botão, dizendo que eu ia levar um choque que jamais ia esquecer”, falou a mulher em um trecho do vídeo.

A mulher disse que a todo momento era pressionada pelos agentes para confessar o crime sob falsas alegações de que o marido dela já teria confessado a autoria material do crime. Segundo Darcinéia, outros dois homens e duas mulheres, uma delas a psicóloga que atendeu o irmão gêmeo de Danilo, acompanharam a oitiva.

O caso

Arquivo Pessoal

Danilo Almeida, de 7 anos, foi raptado na tarde do sábado (11), no bairro do Clima Bom, parte alta de Maceió, quando levava talheres para o padrasto na oficina onde ele trabalha, próxima a casa da família. Segundo relatos do irmão gêmeo da vítima, uma mulher de cabelos verdes em uma bicicleta levou a criança à força.

O corpo do menino foi encontrado na noite do mesmo dia, em um beco movimentado do bairro, com marcas de arma branca na região da cabeça, mas sem vestígios de sangue, como se tivesse sido limpo.

Até o momento ninguém foi preso.

Resposta do Delegado

Diante das acusações, o delegado Fábio Costa – que já havia participado de uma entrevista coletiva ao lado dos também delegados Eduardo Méro e Thiago Prado, na manhã seguinte à denúncia dos responsáveis das crianças – emitiu nota negando as acusações e classificando-as como “descabidas” e dizendo que irá “manter o foco na investigação desse crime bárbaro”. Confira a nota na íntegra: 

“Acerca da denúncia veiculada hoje a meu respeito nego por completo a prática de qualquer tipo de tortura física ou psicológica. A denúncia perpetrada pela genitora da vítima é descabida, notadamente porque não faz parte do modelo de conduta adotado por mim durante o exercício do mister policial. Sempre prezei pela legitimidade e lisura em todos os atos investigativos, de modo que preferimos manter o foco na investigação desse crime bárbaro cometido contra uma criança de apenas 07 (sete) anos, a ter que travar um embate desnecessário contra acusações indevidas. Estou certo que identificaremos e prenderemos o(s) autor(es) deste crime.”

Durante a entrevista coletiva, os delegados presentes defenderam a lisura do trabalho desenvolvido pela equipe investigativa e justificaram a necessidade de ouvir novamente a mãe e o padrasto da vítima por causa de “inconsistências” encontradas nos primeiros depoimentos, atribuindo à “fragilidade psicológica” da mãe as acusações realizadas. No momento da coletiva, Fábio Costa não citou ter participado da oitiva da testemunha e disse que passaria a integrar – junto com os colegas que estavam na coletiva – uma comissão de investigação do caso, a qual continuaria sendo liderada pelo delegado Bruno Emílio.

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Posicionamento da Defensoria

Também por meio de nota, a Defensoria Pública do Estado lamentou e condenou o vazamento do depoimento relatado pelo casal José Roberto Morais e Dacinéia Almeida e disse que não fará qualquer comentário para não atrapalhar a apuração das denúncias. Nota da Defensoria Pública:

“A Defensoria Pública do Estado de Alagoas lamenta e condena o vazamento acerca do depoimento relatado pelo casal José Roberto Morais e Dacinéia Almeida – padrasto e mãe do garoto Danilo, de 7 anos, brutalmente assassinado no último dia 11, algo que foi coletado em sigilo absoluto e encaminhado a diversas autoridades em envelopes lacrados na última semana. Ao mesmo tempo em que, sobre o conteúdo das gravações dos depoimentos dos mesmos, não fará qualquer comentário, a fim de não atrapalhar a apuração das denúncias ali contidas por parte dos órgãos encarregados e, muito menos, fará juízo de valor diante dos depoimentos prestados pelo casal.

Vale ressaltar que um ofício, contendo gravações dos depoimentos, foi encaminhando à Delegacia-Geral da Polícia Civil de Alagoas, Corregedoria da Polícia Civil, Conselho de Segurança, Promotoria do Controle Externo da Atividade Policial, Procurador-Geral de Justiça, Secretário de Segurança Pública, Presidente do Tribunal de Justiça e Governador do Estado

À Delegacia-Geral, a Defensoria Pública pediu que toda a equipe envolvida – delegados e investigadores – com o caso, até agora, fosse afastada, para não existir dúvidas quanta às investigações do brutal assassinato do garoto Danilo Almeida, e qualquer nova oitiva do casal somente se dê com a presença da DPE.”

 

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