Dorflex

Há pessoas que estranham que eu queira saber tanto das coisas. Que não é assim, “menina”, que não se sabe de tudo. Talvez as incomode que eu reflita e pondere tanto, e tão fortemente, sobre os fenômenos que vejo e sinto? Sim, mistério é mistério. E, sim, o mistério está aí, inegável e por toda parte. Desafiar conhecê-lo é um fracasso para o qual o mortal tem que ter estômago (e um monte de curiosidade embutida) — já sabendo, de antemão, que não vai dar pra desvendar o mistério todo — talvez, quem sabe, uns 0,5% dele. Porém, no processo de correr atrás do mistério, às vezes pega-se uma perna dele, trisca-se num cotovelo, braço, pedaço de mão, fiapo de cabelo, uma unha rachada que ele tenha perdido, voluntariamente (sim, o mistério também te quer…). Isso já dá.

Dá pra quê?

“Quanto mais o ser humano estiver consciente de si, a menos influências involuntárias estará submetido.” – Diogenes Junior.

E o que é estar consciente? Na cultura em que vivemos há mais ou menos 6.000 anos (conhecida como patriarcado = a cultura em que se premia o que vem da mente, do pensamento, da razão, e denigre-se sentimento e instinto) entende-se que estar consciente é saber de uma coisa a nível racional. É o conhecer na mente. No entanto, em outras culturas, como as em que se desenvolveu o Budismo, a consciência é entendida como algo mais amplo do que apenas a mente pensante, do que o córtex frontal.

O cérebro humano não é só feito de pensamentos. Pouquíssimas pessoas sabem (e eu também não sabia pela maior parte da minha vida) que o humano tem 3 cérebros: córtex frontal (racional), mamário (relacional ou límbico ou emotivo), reptiliano (instintivo), um montado em cima do outro, na ordem em que foram aparecendo, com o reptiliano embaixo, sendo o mais arcaico, o mais antigo, porém, não menos sábio. De fato, somos seres ‘tri-inteligentes’, e muito mais controlados pelo dois últimos, o mamário e o reptiliano — (mas evitemos falar disso porque o cérebro racional não gosta de “ouvir” que não tem o poderio que “pensa” que tem). Voltando ao que é a consciência: se operamos muito mais a partir dos sentimentos e do instinto, e estas são atividades cerebrais profundamente conectadas ao corpo, então “saber das coisas”, “entendê-las”, passa por uma lucidez muito mais palpável, corpórea, fisiológica, do que apenas “ter algo em mente”, ou seja, saber daquilo abstratamente e sem relação nenhuma com o que se faz e o que se sente, concorda?

Percebo que quando falo sobre isso, as pessoas (e suas mentes) me olham de enviesado. Corpo? Sentimento? (E isso ainda existe?) Não seja pueril, boba, “menina”, não seja sentimental, elas me dizem sem me dizer. No entanto, vamos lá.

Na cultura da mente, ou seja, na qual esquecemos de dar-nos conta do corpo e do sentimento (e novamente: a mente tem apenas uma ideia abstrata do que seja isso — instinto e sentimento — então ler isso, aqui, não faz sentir muita coisa, mas digamos que você pudesse ouvir o áudio no qual leio este texto, e aí sim, veria o que sente, ouvindo uma voz que fala). Pois bem, na ‘cultura da mente’, tudo é abstrato, simbólico, sem uma contraparte física e emocional. As pessoas tendem a ler uma informação e aquilo fica só na cabeça, não leva a um fazer ou sentir algo, na maioria das vezes, a não ser que a pessoa permita àquela informação reverberar, adentrar os outros dois cérebros. Como? Experimentando aquilo no emocional e no físico. Por exemplo: estou com dor de cabeça, me dou conta disso e me pergunto o que pode estar causando, digamos que venha uma intuição louca de tomar um banho frio, e eu siga, então dou o passo (de tomar o banho) e durante o banho vejo como me sinto (raiva, talvez?), o que acontece no meu corpo (está tenso, duro?). Acabo o banho, aguardo um pouco e, de novo, checo como me sinto. Passou? Sim? Não? E por aí vai. Isso é o começo de uma consciência expandida: uma ideia mental levada a experimentações além do mental, ou seja, saber o que acontece a nível mental, corpóreo e emotivo, pelo menos, — e isso não quer dizer desvendar a galáxia ou ir à lua — mas estar lúcido do que for possível, em si especialmente, a cada momento. Mas… o que nos foi ensinado? A tomar um dorflex.

O dorflex. Pois é. O dorflex. O atalho flex de si. Corta bem no meio o processo de ampliação da consciência. O máximo a que se chega é sacar que há uma dor de cabeça, quando muito. Daí pra frente, nada. Corta a auto-reflexão, a auto-investigação, corta a consciência ampliada do que acontece no corpo emotivo e instintivo. Estar consciente não serve para saber sobre algo meramente de graça, e nada fazer. Saber por saber… (Você acha que Sócrates falou “conhece-te a ti mesmo” para que postemos no Facebook?). Consciência boa, mesmo, leva a fazer alguma coisa, a sentir, a descobrir e a solucionar algo. Conhecer é meio, não fim. O saber por saber da mente racional, esse sim, é meio inútil, se não leva a uma ação direta, a uma mudança de direção, a uma nova solução. Se não serve pra atuar a nível físico e emocional, então… não serve muito. E isso me lembra uma palavrinha que, a meu ver, é a tônica da vida tão fenomenalmente mental da nossa cultura: hipocrisia.

Hipocrisia é o jeito que lidamos com essa loucura de tanto saber e pouco fazer, porque passamos, no patriarcado, pouco a pouco, a ser desencorajados da vivência (corpo e sentimento). Dispensamos a vida. O que levou a algo pior: na última carta do tarô, “O Mundo”, a cobra tem que comer o próprio rabo pra reinventar-se, mas, e onde está o rabo? — se pensar não leva a nada, a ação nenhuma, então pra quê pensar, certo? (Pois então não vou procurar o rabo. Pra quê? se não devo comê-lo? se não devo reinventar-me?)

Achar o rabo, depois comê-lo. E ser uma nova cobra.

Coisas que vêm à mente: não querer entrar no mar, não querer dançar, não querer ser tocado, não querer chorar, sentir, se emocionar (com gente, com comida, com arte). Experimentar. Mas para experimentar há que achar o rabo — há que pensar — e assim dar o passo de comê-lo. A mente me leva ao mar (ou não leva), me deixa dançar (ou não deixa). O mistério não será entendido pela mente, realmente; mas ela precisa permitir o vivenciar. Pensar sem gerar um experimento corpóreo-emocional de qualquer tipo é ficar no tal quadradinho da hipocrisia, é como a mente racional escapa de uma vida mais profunda, de uma consciência realmente lúcida, expandida: falar e pensar mas não vivenciar. E nisso a mente racional pode ser exímia. O antídoto? Trazer o corpo, o sentimento. Ter a coragem dos deuses (que somos) de “saber” a nível bíblico, além da mente, saber com a pulsação do corpo. E, paradoxalmente, pensar também serve pra isso. Para não parar por aí…

“Esta era a intenção original da adivinhação (tarô, oráculos, etc): que os indivíduos percebessem a ação destas influências do inconsciente sobre si e alterassem o rumo de suas vidas através de sua liberdade.” – Diogenes Junior.

Para que quero saber das coisas? Para preservar uma liberdade, que é minha (sua também…) de ser e de agir. Para não ser um autômato. Somos deuses e deusas, num fundo não tão fundo assim. O próprio mistério, somos. Correr atrás do mistério (para ao menos um beijo na boca) é correr na direção de nós mesmos.

Ao perseguir o mistério, vai haver um momento em que ele olha de esgueira e pisca, como que dizendo: “quer saber, não é, menina?” O mistério é o diabo e é velho. Mas nós somos tão velhos quanto ele. No entanto, gostamos de nos portar como crianças inconscientes. Que seja, então, assim, até não mais ser.

* É escritora, artista plástica, designer, terapeuta holística, taróloga/astróloga, narradora-fabuladora. @anakarinalua (Insta), @anakarina (FB)

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