A água que lava as mãos

Quando eu li “A Menina que Roubava Livros”, comentei com Pedro da minha surpresa em constatar como o alemão comum havia sofrido na segunda guerra. Foi quando ele, olhando para mim com perplexidade, perguntou “Mãe, como pode numa guerra alguém escapar do sofrimento?”

A literatura, melhor que no cinema que anda rápido, trata das dores dos personagens de forma mais real, exatamente porque dispõe de mais tempo para descrever o silêncio, a angustia interior e as interrogações a respeito da razão de existir.

Quem já leu “O Diário de Anne Frank”, ou outros parecidos, sabe bem de quanta monotonia é feita uma rotina fora da rotina, e talvez por isso seja tão difícil ler as intermináveis horas feitas de melancolia.

As vezes os livros se dedicam a fazer uma dilacerante narrativa de alguma doença, como em “A morte de Ivan Illich”, e as descrevem com calma, mas, nós leitores, podemos adiantar ou adiar o desfecho, de acordo com o nosso humor.

Se a melancolia ou as doenças parecem difíceis na leitura, que podemos parar para respirar a normalidade, assumem uma dimensão assustadora quando colocada na vida nossa de cada dia, com tempo suficiente para pensar sobre isso.

Existe um monte de exemplos nos livros, como os que citei, que tratam de situações de dificuldades, alguns até mais contundentes, mas meu conhecimento literário não é dos maiores, destaquei esses apenas para tentar me colocar de forma mais razoável na atualidade.

Ē que tenho achado a realidade mais perecida com um livro do que com a vida de todo dia.

Eu tenho respeitado a orientação de me manter afastada, mas tenho ido trabalhar, (minha atividade é na área de saúde), tenho feito feira, eventualmente ido na farmácia, ou seja, não estou completamente isolada do mundo, e confesso, o dia a dia não tem sido das experiências mais fáceis, sentindo temor no sair e solidão no ficar.

Tenho conseguido me suportar até direitinho, intercalado noticiário, com leitura, com filmes e séries, ido pra cozinha, subido as escadas do prédio, trocado mensagens ou arengado pela internet, mas tem uma hora que isso tudo parece pouco.

Tem momentos que desejo mesmo é respirar liberdade… e olhe que a minha vida não tem nada de extraordinário.

A monotonia do distanciamento social, que impede uma série de coisas simples, tem sido um aprendizado de resignação, a mesma que já precisei me valer quando entendi que não conseguia segurar o tempo e é justamente ele, o tempo, que agora passa mais devagar que meu desejo.

A descrição dos riscos da atual pandemia, vindo de conta gotas, com novidades diárias, parece mais descrição de cena de tortura de um capítulo longo e arrastado da ficção.

Um dia sabemos que o pulmão é o problema, no outro que há coágulos graves, ou que não se consegue estabelecer um protocolo de abordagem seguro e por aí vai, o medo se renova e me sinto na escuridão.

Nada sei a respeito das razões de existir, e se ē imperativo passar por tudo isso para entender um pouco mais da vida, do que somos feitos e quem é quem nesse enredo, não lutarei contra, só torço para que não seja algo parecido com o descrito no “Ensaio sobre a Cegueira”.

Essa crise sanitária tem me forçado a viver uma realidade que jamais imaginei e mais do que nunca me lembro da afirmativa de Pedro, não há como passar por uma guerra sem sofrimentos.

A melancolia deve ser parte da epidemia, tomara que a segunda onda (que tanto se fala), venha com esperança, porque além dos outros medos, tem mais esse, que ela esteja se esvaindo pelo ralo, junto com a água que lava as mãos.

Abril de 2020

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