ídolo do Union lembra de doação de sangue da torcida para arrecadar dinheiro ao clube

Divulgação / Union Berlin

Union Berlin e sua torcida vivem uma relação muito harmoniosa, com seus torcedores apaixonados e que estão sempre apoiando a equipe. Em entrevista ao FOXSports.com.br, o ex-atacante e artilheiro do clube Daniel Teixeira contou como era viver nesse ambiente e revelou histórias que provam o amor dos fãs à equipe.

“Essa ligação é uma coisa muito especial. Já começa desde lá de trás. O Union fica no lado oriental de Berlim. Então, tem a história de ter passado pela guerra, pela separação, de começar a participar do campeonato da Alemanha Oriental. Tinha o time da polícia, que é o Dynamo, maior rival. Depois, na unificação, fizeram um ranking, onde todos os times da Alemanha Oriental foram separados, e somente dois clubes foram para a primeira divisão. E o Union foi para a terceira, sem conseguir subir para a segunda de jeito nenhum”, disse o ex-jogador.

“E a torcida sempre teve uma participação muito grande. Uma vez, eles fizeram uma doação de sangue, onde cada um que doasse dava 10, 20 euros para ajudar o clube. Eles participaram da reforma do estádio, em 2008. O Union viu que estava na segunda divisão há algum tempo, o objetivo era subir para a primeira, tinha que fazer o estádio e a torcida ajudou, doou várias horas do seu tempo, para participar com trabalho. O presidente que está lá hoje tem o objetivo de ouvir sempre a torcida, para que a torcida participe e dê palpite sobre que sejam tomadas as decisões futuras”, completou.

Além disso, Daniel concorda que as torcidas farão falta para todos os clubes, mas ressalta que, para o Union Berlin, possa ser pior pela relação que existe entre os dois.

“Jogar sem torcida é ruim em qualquer lugar e para qualquer time. Eu já joguei e é horrível, quando faz um gol, você não sabe para onde corre, olha para o lado. É muito ruim. Para o Union, acho que mais ainda. Porque a torcida já tem essa característica toda, todo mundo já acostumado a jogar com essa torcida maravilhosa. Eles são até meio loucos no sentido positivo. Mas eu tenho certeza de que os jogadores, que são experientes, vão dar conta do recado”, apontou.

O Union Berlin irá encarar o Hertha, na próxima sexta-feira (22 de maio), no estádio Olímpico, para o clássico da capital. O FOX Sports irá transmitir o duelo ao vivo e com exclusividade, com abertura da transmissão às 15h.

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA ABAIXO:

– Você jogou lá em três temporadas. Como é sua ligação com a torcida atualmente? Como tem sido a recepção quando você vai até Berlim?

“Minha ligação é muito bacana. Eu fui para a Alemanha com 30 anos, já um pouco tarde. Joguei, primeiramente, no Uerdigen, na primeira temporada fiz 22 gols, o que despertou o interesse do Union. Fui para lá em uma das melhores temporadas da história do Union, como foi a melhor da minha vida também. Nós subimos de divisão, fomos para a final da Copa da Alemanha contra o Schalke. E eu fui o artilheiro do campeonato com 32 gols, fui eleito melhor jogador. Foi uma época que deu tudo certo. Depois, o Union não chegou a um acordo para comprar meu passe. Em 2005, já com 37 anos, eles me convidaram para voltar, fiquei mais dois anos. Depois, eles me ofereceram um trabalho por lá, fizeram jogo de despedida. Trabalhei lá dois anos, então, um clube que passei, praticamente, cinco anos. Eu vou todo ano na Alemanha, praticamente, e sempre faço questão de fazer uma visita, assistir um jogo. Eu fui diretor do Cruzeiro, do departamento internacional, de 2015 a 2018, e levei o sub-19 do time para fazer um amistoso. Tenho muitos amigos em Berlim, é uma cidade que gosto muito. Tenho nacionalidade alemã, e dos 12 anos que eu passei na Alemanha, seis foram lá. Costumo dizer que, depois de Belo Horizonte, minha cidade preferida é Berlim”

– Quando você passou por lá, o Union estava nas ligas regionais. Como é essa experiência, que é diferente do Brasil? E como foi a emoção de ter chegado a uma final de Copa da Alemanha contra um grande clube como o Schalke?

“Na época que eu cheguei, a Regionalliga era divida em quatro regiões. Agora, existe a terceira liga e a Regionalliga passou a ser a quarta divisão. E, realmente, essa passagem da terceira para a segunda divisão nacional é uma coisa muito difícil de se conseguir. Só classificam dois clubes. E cada grupo tinha um peso. No nosso grupo, que era o mais difícil, que eram os clubes do norte e nordeste, que classificava dois. Tinha grupo que só classificava um. A gente derrotou, acho, quatro clubes da segunda divisão e dois da primeira. Ir para a final no estádio Olímpico, para 75 mil pessoas, contra o poderoso Schalke, foi realmente, um feito muito especial e muito grandioso, que as pessoas lembram com muito carinho até os dias de hoje”

– Quais são as principais dificuldades que você na disputa dessas ligas regionais da Alemanha?

“A dificuldade é que o orçamento de um clube desses é muito menor. Apesar de que, se for comparar com o Brasil, o Union, hoje, tem um orçamento de 80 milhões de euros. Lógico que hoje está na primeira divisão, só da televisão pega 30 milhões de euros. Mas quando você vai para a segunda divisão abaixa mais e para a terceira mais ainda. Mas tem a grande vantagem que esses clubes, mesmo de terceira, quarta e até de quinta divisão, tem uma estrutura maravilhosa. Você vai no clube e tem quatro, cinco campos para treinar, estádio para jogar, toda estrutura de material. Fora toda organização, que é sensacional, que vai desde a primeira até a 12° divisão. É um negócio bacana demais que eles fazem. A partir da quarta, quinta, já fica algo mais amador, mas nem por isso desorganizado. Eu até tive a oportunidade de ser convidado pelo Walter Feldman, da CBF, de dar uma palestra sobre a organização do futebol alemão. Então, esse era meu sonho, de fazer um negócio desses no Brasil. Acabar com os campeonatos regionais e fazer a partir da série C ou D alguns campeonatos regionalizados, que pudessem ocupar o time o ano todo. Porque, como a gente sabe, a maioria dos clubes do Brasil não tem oportunidade de jogar o tempo todo, disputam até abril, maio e depois param. Então, esse modelo de organização alemão é um negócio sensacional e pode se ter certeza de que a seriedade que eles tem na Bundesliga, eles tem na sétima, oitava e nona divisões”

– No dia do jogo contra o Stuttgart, quando o time subiu, como foi para você a emoção e como você viu a reação no estádio ao acesso?

“O Stuttgart é um time super tradicional, e, normalmente, quando tem o playoff, é o time da primeira divisão que ganha. Ainda mais o Stuttgart, um time super poderoso. Eu tenho certeza de que a torcida ajudou muito nesse jogo. Para mim, foi uma emoção muito grande, assisti ao jogo do Brasil esse sonho de participar pela primeira vez da Bundesliga. O dia que o time subiu, eu passei uma mensagem para o presidente, e ele só respondeu: ‘Você não tem noção do que está acontecendo aqui’. Eu subi uma vez da terceira para a segunda, eu sei o que foi. Então, fico imaginando o que foi o dia que subiu para a primeira e o que significou para os torcedores”

– O quanto você acha que é mais difícil para os times da Alemanha Oriental estarem na disputa contra os times maiores do país?

“Eles têm uma desvantagem histórica, porque, depois da unificação, todos os cidadãos da Ocidental pagam até imposto para ajudar a Oriental. Eram cidades com estrutura precária, assim como os clubes. Então, isso dificultou bastante. Não tinha muitos incentivos de empresários, patrocínios. Então, isso ainda está em andamento, vai levar mais alguns anos para evoluir, ainda. Só tem, hoje, o Union na primeira divisão. Tem o Leipzig, mas já é outra história, devido a Red Bull. E o Leipzig já não é bem visto pelos outros clubes. Eu lembro que, quando eu jogava lá, marcaram um amistoso, e a torcida foi para a rua, protestou que não ia ter o amistoso e não teve. Eles são totalmente contra esses clubes sem tradição, que tem objetivo comercial. Tem, também, o Hoffenheim. Tem a lei da Alemanha que não permite que os clubes tenham investidores com mais de 50% das ações, a não ser os casos do Leverkusen e do Wolfsburg, que já tem mais de 20 anos nessa, são casos diferentes. Então, o Leipzig tem isso de ser mal visto e, praticamente, só tem o Union (da Alemanha Oriental) na primeira divisão. E, mesmo na segunda, que também é muito lucrativa, só tem o Dresden e o Erzegirbe Aue. Muitos clubes tradicionais, que já estiveram na primeira divisão, como o Cottbus, o Hansa Rostock, estão na terceira, quarta divisões, porque não aguentaram. E eu tenho certeza, que por serem clubes do Leste, isso influenciou em suas quedas”

– Falando da atual temporada, você esperava que o time fosse conseguir bons resultados na Bundesliga? O que você acha que será necessário para seguir na primeira divisão?

“Realmente, está sendo uma temporada muito boa, apesar de a situação não estar tão tranquila ainda. O Düsseldorf está com 23 pontos, o Union com 30, faltando oito rodadas. Dessas, o time vai ter que ganhar umas três ou quatro, o que não é fácil. Tem jogos difíceis, ainda terá que pegar o Mönchengladbach. Mas o começo foi muito ruim. Nas primeiras sete partidas só ganhou o jogo contra o Dortmund, surpreendentemente, que foi um super jogo, onde o Borussia não jogou tão bem, o Union jogou maravilhosamente bem, fez os gols na hora certa. Mas, depois ganhou algumas partidas e estabilizou no meio da tabela. Agora, mesmo com essa derrota para o Bayern de Munique, onde o time jogou muito bem, foi até o limite. É lógico, é um time limitado, mas com a sua torcida, com a sua força, a sua garra e o seu conjunto podem fazer a diferença. E eu acho que a maioria das pessoas na Alemanha tinham o Union como um clube que iria descer de novo, porque a maioria dos clubes que não foi para a primeira divisão ainda, que sobe pela primeira vez, normalmente, descem de novo. Mas, como eu disse, o Union tem um programa difícil pela frente, mas eu acho que eles têm toda as condições de ficar na primeira divisão. O que vai gerar uma festa tão grande quanto foi subir de divisão. E quanto mais tempo ficar na primeira, mais vai se fortalecer, mais vai ter dinheiro de televisão, vai se fortalecer com patrocinadores. Mas o torcedor, se o time descer, não se preocupa, não. Ele continua torcendo, continua ido do mesmo jeito. Claro que jogar contra Bayern de Munique, Borussia Dortmund, é muito melhor. Mas a torcida vai estar sempre com o Union, isso pode ter certeza”

– Agora, na volta da Bundesliga, os jogadores não podem nem se abraçar na hora dos gols. Como você vê o retorno do torneio e o que acha desse tipo de medida de precaução?

“Eu acho que a Alemanha quis dar o exemplo que muitos vão seguir Com certeza, muitas ligas europeias e mundiais vão estar de olho na Bundesliga agora, como é que está tudo acontecendo. E, mesmo agora, que é uma coisa atípica, que nunca aconteceu, que ninguém está acostumado e que muita gente tem dúvida, nem sabe como agir, acho que eles estão agindo muito bem, tanto como sociedade, quanto no futebol. Agora, isso de não comemorar, eu acho que é coisa de exemplo, mesmo. Todos os jogadores ali estão testados. Lógico, que tem muita gente em volta, também, um jogo não se resume só a jogadores e comissão técnica, pode colocar umas 300, 400 pessoas, no mínimo. Então, acho que eles fazem isso mais a título exemplar, mesmo”

– Você não chegou a jogar nenhuma partida oficial contra o Hertha. Mas o quanto existe essa rivalidade na cabeça dos torcedores e o quanto é comentado isso na capital?

“Eu já disputei uns jogos contra o Hertha, mas só amistosos. É uma rivalidade diferente, porque é, também, historicamente, política. É um time do Leste contra outro do Oeste. Então, os times que se encontraram, somente, depois disso. Mas ela não é tão grande quanto os times da Oriental, como o Dynamo, por exemplo. Eu lembro de uma vez que fui jogar contra eles e o rapaz virou para mim e disse: “Olha, Daniel, hoje, você fala para a sua esposa não vir, ninguém vir, para todo mundo ficar em casa que não dá”. Quando eu cheguei lá, parecia que tinha mais polícia do que torcedor. Mas quanto ao Hertha, eu li alguns artigos que falar que, quando aconteceu a unificação, a primeira coisa que fizeram foi um amistoso contra eles para unir, para os times ficarem amigos. Então, não é uma rivalidade tão grande. Existe por um time ser do Leste e outro do Oeste. E pelas características das pessoas serem diferentes. Eu acho que ainda vai demorar alguns anos para isso modificar. Eu lembro que morava na parte leste, por ser mais próximo do estádio, lembro que conversava com meu vizinho que passou tudo da Alemanha Oriental, e conversava com pessoas do Oeste e dava para ver uma diferença nas características, na maneira de pensar. E isso também é no futebol. A rivalidade não é tão grande, mas as pessoas, sim”

– Você diria, então, que essa rivalidade pode ser considerada muito mais unificadora do que de separar?

“Sim, eu acho que a gente pode falar isso, apesar de as torcidas terem suas características diferentes. Mas eu acho que é cada uma querendo provar que é a número 1 de Berlim. Porque o Hertha sempre foi o número 1, sempre esteve na primeira divisão, salvo alguns anos em que esteve na segunda. Mas é a primeira vez do Union. Aí, esses dois tiveram esse clássico na segunda divisão, há alguns anos, mas, na primeira, o Union ganhou o primeiro, então, eu acho que a torcida do Union já está falando que é o número 1 de Berlim. É uma disputa muito boa, mas é bem saudável, também”

– Você foi artilheiro do clube em duas das três temporadas que você atuou lá. O quanto isso foi marcante na sua carreira e quanto isso ainda é lembrado pelos torcedores?

“Eu acho que os clubes alemães em si têm um reconhecimento muito grande pelas pessoas que trabalharam por eles. O reconhecimento de ter feito um jogo de despedida, de o clube ter feito 50 anos em 2016, presidente me ligou, falou que eu estava convidado, que eu podia levar o número de pessoas que eu quisesse, foi uma festa maravilhosa, quando tem jogo dos veteranos, eles me chamam também. A torcida, a diretoria, sempre que eu vou lá, aviso que estou chegando, eles preparam tudo. Quando eu levei o Sub-19 do Cruzeiro, eles perguntaram o que eu precisava. Então, esse reconhecimento dos clubes alemães, eu joguei por outros e todos tem um reconhecimento muito bacana, mas o Union Berlin é especial. E o reconhecimento que eles têm por mim, toda assistência que eles dão é algo muito emocionante, muito bacana, que a gente guarda no coração”

– Qual é o momento que você mais se orgulha de ter tido por lá?

“Ah, a final da Copa da Alemanha. Você chegar em uma final de uma Copa, eu acho que é um negócio muito importante. Foi um jogo que me marcou bastante, e marcou bastante a torcida do Union. Se eu falar sinceramente, muita gente já foi meio derrotada naquele jogo, já estava satisfeito com aquela final. Lógico que o Schalke é melhor, vários jogadores da seleção, ficou em segundo naquele ano da Bundesliga. Mas aquele jogo eu ainda guardo um pouquinho, assim, de que a gente poderia ter encarado mais. Podia ter dado para trás e a gente tomado de cinco. Mas, de todos esses anos, o que mais me marcou foi essa final da Copa de 2000/01”

Fonte: FOX Sports

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