Movimento negro protesta e pede saída do presidente da Fundação Palmares

Representantes do Movimento Negro protestam em frente à Fundação Palmares, em Brasilia, e pedem saída de Sérgio Camargo — Foto: Carolina Cruz/G1

Representantes do movimento negro realizaram um protesto, na manhã desta sexta-feira (5), em frente à Fundação Cultural Palmares, em Brasília. A manifestação ocorreu após o vazamento de áudios do presidente do órgão, Sérgio Camargo.

Em uma reunião, Camargo chamou o movimento negro de “escória maldita” e disse que Zumbi dos Palmares era “filho da puta que escravizava pretos”. A gravação foi revelada pelo jornal “O Estado de S. Paulo” na última terça (2). Na ocasião, o presidente da fundação divulgou uma nota que dizia “lamentar a gravação ilegal” de sua fala.

A líder religiosa Mãe baiana de Oyá – xingada por Camargo de “filha da puta”, “macumbeira” e “miserável” – esteve presente no ato e disse que a ação é pacífica.

“Esse ato é pacífico porque nós somos um povo de paz. É importante para dizer para quem falou, que nós não somos vagabundos”, disse.

“Somos povos e comunidades tradicionais de matriz africana, são entidades negras que estão aqui, vidas negras importam.”

Roupas brancas e balões

A manifestação começou por volta das 10h e terminou às 12h15. O ato ocorreu em frente ao prédio da Palmares, no Setor Comercial Sul. Manifestantes cantaram, jogaram capoeira e gritaram palavras de ordem pela saída de Camargo.

G1 pediu um posicionamento da Palmares – vinculada ao governo federal – e aguardava um retorno até a publicação desta reportagem.

 Sérgio Nascimento de Camargo foi nomeado presidente da Fundação Palmares, o que gerou reação por parte de movimentos negros — Foto: TV Globo/ReproduçãoSérgio Nascimento de Camargo foi nomeado presidente da Fundação Palmares, o que gerou reação por parte de movimentos negros — Foto: TV Globo/Reprodução

No fim da manhã, manifestantes fizeram um minuto de silêncio e soltaram 200 balões em memória de pessoas negras mortas e também em homenagem aos brasileiros que vítimas da Covid-19.

De acordo com os organizadores, a cor branca representava a paz e também fazia referência às religiões de matrizes africanas. Toda a ação ocorreu sem interferência da polícia e não houve impacto no trânsito.

O grupo também levantou cartazes em referência à vereadora assassinada Marielle Franco e ao menino Miguel Otávio, de 5 anos, que morreu ao cair de um prédio de luxo no Recife, enquanto estava aos cuidados da patroa, branca.

Ato em frente à Fundação Cultural Palmares, em Brasília — Foto: Carolina Cruz/G1Ato em frente à Fundação Cultural Palmares, em Brasília — Foto: Carolina Cruz/G1

Áudios vazados

Nos áudios, Sérgio Camargo chamou o movimento negro de “escória maldita” e também criticou o Dia da Consciência Negra. Além disso, ele falou em demitir “esquerdista”.

A reunião onde houve as declarações foi marcada para tratar do desaparecimento de um celular corporativo de Camargo. Questionado no encontro a respeito de quem poderia ter pego o aparelho, respondeu: “Qualquer um. Eu exonerei três diretores nossos assim que voltei. Qualquer um deles pode ter feito isso. Quem poderia? Alguém que quer me prejudicar, invadindo esse prédio aqui pra me espancar. Quem poderia ter feito isso? Invadindo com a ajuda de funcionários daqui”.

“O movimento negro, os vagabundos do movimento negro, essa escória maldita.”

Já a Mãe Baiana de Oyá, coordenadora de Políticas de Promoção e Proteção da Diversidade Religiosa da Secretaria de Justiça do DF, é citada por Camargo em outra gravação.

“Tem gente vazando informação aqui pra mídia. Vazando pra uma mãe de santo, uma filha da puta de uma macumbeira. Uma tal de Mãe Baiana, aquela que infernizava a vida de todo mundo. É. Além de fazer macumba pra mim, essa miserável tá querendo agitar invasão aqui de novo. Eu sei, tem gente no grupo dela de WhatsApp. Tinha esquema. Não vai ter nada, nada pra terreiro, da Palmares, enquanto eu estiver aqui dentro. Nada, sério. Macumbeiro não vai ter nenhum centavo”, disse Camargo.

A mãe de santo denunciou Camargo por injúria. A representação foi protocolada pelo Ministério Público nesta quinta (4).

Questionada sobre a expectativa de medidas da Justiça, Mãe Baiana afirma que acredita na Justiça brasileira. “Eu fiz minha parte, agora, cabe às autoridades”.

Histórico

Declaração do novo presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo, publicada em rede social — Foto: Reprodução

Declaração do novo presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Nascimento de Camargo, publicada em rede social — Foto: Reprodução

A nomeação de Sérgio Camargo para a presidência da Fundação Cultural Palmares foi oficializada em 27 de novembro de 2019 e gerou uma série de críticas e indignação.

Numa publicação antes de ser nomeado para o cargo, o jornalista classificou o racismo no Brasil como “nutella”. “Racismo real existe nos Estados Unidos. A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda”, afirmou.

Ele também postou, em agosto de 2019, que “a escravidão foi terrível, mas benéfica para os descendentes”. “Negros do Brasil vivem melhor que os negros da África”, completava a publicação

Sobre o Dia da Consciência Negra, Sérgio Camargo afirmou que o “feriado precisa ser abolido nacionalmente por decreto presidencial”. Ele disse que a data “causa incalculáveis perdas à economia do país, em nome de um falso herói dos negros (Zumbi dos Palmares, que escravizava negros) e de uma agenda política que alimenta o revanchismo histórico e doutrina o negro no vitimismo”.

Sérgio publicou uma mensagem numa rede social na qual disse que “sente vergonha e asco da negrada militante”. “Às vezes, [sinto] pena. Se acham revolucionários, mas não passam de escravos da esquerda”, escreveu.

Em 13 de maio, aniversário da Lei Áurea, Sérgio Camargo publicou artigos depreciativos a Zumbi no site oficial da instituição. Em redes sociais, disse que Zumbi é “herói da esquerda racialista; não do povo brasileiro. Repudiamos Zumbi!”.

O Ministério Público Federal apresentou uma representação para que o presidente da fundação responda na Justiça por improbidade administrativa.

Fonte: G1

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