Será um ano perdido?

Esse é um daqueles anos que dá pensar “devia ir pra lata do lixo” e quando penso nisso, logo busco na memória o que fiz de diferente no Reveillon, para ter dado tudo errado.
Você deve estar imaginando que eu sou absolutamente sem noção, em cogitar a possibilidade de o mundo estar na beira da hecatombe, porque eventualmente troquei a cor da roupa, ou esqueci de sacudir sementes de uva para trás, pular num pé só e fazer pedidos.
Perdoe o devaneio, na verdade essas bobagens me ocorrem, quando, sem sono e esperando o tempo passar, penso na grande confusão em que estamos metidos, ainda bem que engreno junto outros questionamentos, para ocupar o vazio que fica quando me vejo longe de todos.
Na verdade eu fico achando que esse ano “tá perdido, mas o quê é perder um ano?
Será que ter um pouco mais de tempo para ler, assistir aquela série recomendada, ou preparar uma comida de melhor qualidade é assim uma perda tão irreparável?
Para quem tem filhos, pode ser a chance de conviver mais com eles; para quem tem animais, a de  poder conhecer os hábitos; para quem mora com outros familiares, a oportunidade de propor contratos de convivência mais colaborativos, e me pergunto será que isso é realmente uma perda?
Na minha opinião, só quem vai mesmo perder o ano é quem for atingido com a morte, principalmente se tiver sido negada a chance de lutar pela vida.
Eu não sou completamente doida, eu lamento as distâncias, sinto saudade dos que amo, me faz falta o encontro com amigos, sair sem máscara. Isso e mais um monte de outras coisas também me entristecem, mas eu serei injusta se considerar que estou “perdendo o ano”.
Eu não entendo de economia, só fui treinada para valorizar a vida, afinal sou uma boa ocidental, não festejo a morte como sendo um fenômeno natural que não mereça preocupação, por isso sempre fui a favor do distanciamento social, como forma de cuidado, apesar de acreditar que não conseguiremos, só com essa medida, impedir a propagação do vírus num mundo globalizado.
E até tento explicar essa contradição.
A razão é relativamente simples, “trancar” as pessoas, objetiva uma contaminação comunitária mais lenta, dando a possibilidade de salvar muita gente da morte, evitando a tragédia de assistir familiares nas portas dos hospitais, chorando em busca de uma vaga inexistente.
Mas dito assim parece pouco.
Quebrar a economia do País por causa de alguns (e como tem sido dito por aí  “a maioria já era doente, né…”) não soa razoável. Parece fazer sentido deixar mesmo que morram.
Acontece que se essa morte for do “chefe”, ou do gênio empresarial? Essa morte terá impacto importante na economia, e fará falta na reconstrução “das sobras”, quem irá substituí-lo com velocidade?
Ou ainda, se a morte for de um dos numerosos aposentados, a melhor e mais certa renda da família toda. Quem sobrou, provavelmente não terá capital para impulsionar o consumo numa economia combalida. Rico não sai na rua do comércio fazendo compra.
Ou seja, na minha pouca leitura, não considero que uma morte evitável não seja uma perda irreparável.
E volto os meus pensamentos para a ideia de jogar esse ano na lata do lixo, não vou insistir nisso, essa tentativa de esquecer o que está acontecendo de ruim, levaria junto tudo o que estou aprendendo.
Eu também estou de saco cheio disso tudo, mas vou acreditar na possibilidade de compreender mais sobre qual o sentido da vida, já que tudo assume valor relativo diante do risco de morte.
E para assegurar que tudo irá se acalmar, uso o tempo passado nos muitos banhos adicionados na rotina, para programar o próximo réveillon, de branco, com uva e semente, e uma relação de pedidos, só que agora cuidadosamente selecionados.
Fonte: Katia Betina * (*É articulista)

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