Mourão diz que opositor do governo no Inpe divulga dados negativos sobre queimadas

Vice-presidente não informou o nome do funcionário. Na semana passada, Mourão já havia reclamado de 'contradição' em números do Inpe que apontam alta nas queimadas.

Reuters

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta terça-feira (15), sem citar nome ou provas, que “alguém” no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que faz “oposição” ao governo do presidente Jair Bolsonaro prioriza a divulgação de dados negativos sobre queimadas.

Mourão, que preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal, deu a declaração ao comentar dados sobre queimadas na Amazônia registrados pelo sistema do Inpe, cujos número são abertos para consulta pública.

Segundo o instituto, as duas primeiras semanas de setembro de 2020 (até dia 14) registraram mais focos de queimadas do que todo mês de setembro de 2019 – 20.486 contra 19.925.

Segundo o vice, o governo está “no campo combatendo isso aí”, se referindo às queimadas, e os números “têm que melhorar”.

Em seguida, indagado sobre uma divergência nos dados sobre queimadas citados por ele na semana passada, Mourão reclamou da divulgação de dados negativos e afirmou que um opositor do governo Bolsonaro dentro do Inpe está agindo para tornar essas informações públicas.

“Eu recebo o relatório toda semana. Até dia 31 de agosto, nós tínhamos 5 mil focos de calor a menos do que 31 de agosto do ano passado, entre janeiro a agosto. Agora, o Inpe não divulga isso. Por quê?”, indagou o vice-presidente.

Mourão acrescentou: “Não é o Inpe que está divulgando. É o doutor Darcton [Policarpo Damião] lá, que é o diretor do Inpe, que falou isso? Não. É alguém lá de dentro que faz oposição ao governo. Eu estou deixando muito claro isso aqui. Aí, quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga”.

Questionado sobre quem seria o responsável por divulgar os dados negativos, Mourão disse não saber. Ele declarou não ter suspeitas do nome do suposto opositor do governo dentro do Inpe.

“Eu não sou o diretor do Inpe. Então, eu não sei [quem é o opositor].”

O Inpe informou que não vai comentar as declarações do vice-presidente.

O pesquisador Gilvan Sampaio, responsável pela área do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que monitora as queimadas no Brasil, disse que “jamais faria manipulação de dados”.

Ele afirmou ainda que o Inpe enviou na sexta-feira (11) um “esclarecimento” ao gabinete de Mourão.

‘Contradição’

Na semana passada, Mourão reclamou sobre os dados do Inpe ao ser questionado a respeito de uma reportagem do jornal “O Globo”, que mostrou que o instituto detectou que o número de focos de calor registrados na Amazônia entre 1º de janeiro e 9 de setembro deste ano foi o maior para o período desde 2010 – 56,4 mil, alta de 6% em relação ao mesmo período de 2019.

Mourão disse que o Inpe estava “se contradizendo”, já que os dados que ele recebeu indicavam redução nas queimadas. Entretanto, os dados citados por Mourão cobriam um período mais curto que o informado na reportagem: entre 1º de janeiro e 31 de agosto.

“Eu vi essa notícia ali que você está comentando e digo, ora, pô, então está em desacordo com o que eles mesmos me mandam”, disse Mourão.

Em agosto, o sistema de monitoramento do Inpe indicou que a Amazônia teve 29.307 registros de queimadas. Houve uma queda de cerca de 5,2% em relação a agosto do ano passado, quando foram registrados 30,9 mil focos de calor.

O número, entretanto, foi 12,4% maior que a média histórica registrada para o mês, que é de 26.082 focos, e o segundo maior registrado desde 2010.

As queimadas na Amazônia continuam mesmo depois de um decreto do Ministério do Meio Ambiente (MMA) publicado no dia 16 de julho (e que começou a valer na mesma data), que suspendeu por 120 dias o uso de fogo em ambos os biomas.

O texto diz que a proibição se aplica “no território nacional”, apesar de determinar que “ficam autorizadas as queimas controladas em áreas não localizadas na Amazônia Legal e no Pantanal, quando imprescindíveis à realização de práticas agrícolas, desde que autorizadas previamente pelo órgão ambiental estadual”.

Fonte: G1

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