Eu não sou racista…

Minha bisavó também não era, mas por precaução, obrigava a minha avó a tomar “leite de magnésia” quando ela estava grávida, para limpar a barriga e não nascer um filho “sujinho”, (entenda como sujo, um filho de pele mais escura).

Eu não sou racista…

Mas eu já fui abordada por um segurança do shopping maceió, trazendo um sobrinho que andava pelas mesas pedido o lacre da latinha de refrigerante durante uma promoção, porque um cliente disse que ele estava “incomodando”.

Curiosidade, eu estava com três crianças da mesma idade, fazendo a mesma coisa, meu filho e mais dois, mas só “incomodou ao cliente” o que tem a pele de cor mais escura.

Eu não sou racista…

Mas acho absolutamente normal que negros sejam mortos, com ou sem, aquilo que convencionamos chamar de “motivo justo” para “diminuir a violência”.

Eu não sou racista…

Somos desiguais e a violência é maior na pobreza… ponto final…

Mas será que não há alguma razão para os pretos serem a maioria dos pobres?

Eu já ouvi, de gente de bem, uma afirmativa instigante, que isso se deve a “vocação” dos negros para dança e a pela pouca dedicação ao ensino e ao trabalho…

Não consigo enxergar menos talento no bailarino branco Mikhail Baryshnikov, ou menos capacidade intelectual no político Mandela ou na advogada Michele Obama, mas enxergo falta de oportunidade.

Eu considero que a história da humanidade tem diversas passagens bem trágicas, mas para mim, a escravidão, certamente se encontra entre as TOP, inclusive porque foi considerada legal e me pergunto se todos, passado tanto tempo, conseguimos entender a gravidade dessa situação.

Imagine o dor de arrancar um filho dos braços de uma mãe, pior que o que fazemos com animais domésticos, apartados pela necessidade da venda.

Coração e alma de mãe não tem distinção de cor.

Eu não sou racista…

Mas quase que automaticamente, pergunto ao negro que estiver na loja, se ele pode me atender, porque não imagino que ele seja tão cliente quanto eu.

Eu não sou racista…

Pessoalmente eu nunca fui incomodada com “racismo”, nada mais justo, afinal eu tenho cabelo “bom”.

Eu não sou racista…

A verdade ē que não pensamos nisso, assumimos que não somos racistas e seguimos achando natural a notícia de um negro espancado, torturado ou morto, sem conseguir sequer apresentar algum documento válido e explicar que estava voltando do trabalho ou indo comprar uma pizza.

No dia que o segurança do shopping trouxe meu sobrinho para a mesa com a desculpa de “que ele estava incomodando”, eu fiquei brava, reclamei que outras crianças estavam fazendo a mesma coisa, que se não podia pra ele, eu queria que todas as demais também fossem retiradas… mas não fiz mais nada, peguei os meus três meninos e fui para casa, engasgada, mas pensando comigo mesma que nada mais eu podia ter feito, afinal nós não somos racistas.

E se não somos racistas, nada há por fazer… e eu não tenho nenhuma culpa disso tudo..

Será?

Novembro de 2020

 

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2 Comentários

  • Valgran Ferreira de Azevedo says:

    Lendo o texto e cenas, da minha vida, foram passando! Como mamãe esqueceu de tomar leite de magnésio, nasci sujinho. Inevitável , passei a ter relações com pessoas que não são racistas! Noutro dia precisei ir a um condomínio acompanhado de um irmão de pele clara. Ao passarmos pela portaria , fui abordado pela segurança com a cobrança de um documento. Questionei a ausência do mesmo procedimento ao meu parceiro. Sabe o que me respondeu esse funcionário que não é racista? Pensei que fosse um morador.
    Seu texto é muito coerente! Parabéns!

  • Gerson Maciel says:

    Belo texto Kátia, precisamos reforçar o combate ao racismo, principalmente na sociedade alagoana.

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