Cícero Lourenço da Silva, pai do jovem Davi da Silva, clamou por justiça e pela localização dos restos mortais de seu filho nesta manhã, 4, em frente ao fórum onde ocorre o júri popular do caso. Após 12 anos do desaparecimento do rapaz, Cícero usou a voz para confrontar o silêncio e a impunidade, buscando encerrar um ciclo de dor que começou quando Davi foi levado por policiais enquanto conversava com amigos.
Com o olhar marejado e vestindo uma camiseta com a foto do filho, Cícero não pedia apenas a condenação dos envolvidos, mas o direito básico de realizar um sepultamento. Ele questionou a conduta das autoridades na época e reforça a inocência de Davi:
“Olha, minha filha, o que eu quero é justiça, né? Eu quero que dê tudo certo, porque meu filho estava na esquina, assim na pista, né, de pé, conversando de manhã… e a mãe dele trabalhando. E eu quero justiça desse filho de Deus que pegou meu filho. Minha morte tem que ser em algum local e eu quero nem que seja um fio de cabelo dele, um osso dele, pra gente tirar o foco.”
“Ele era uma criança”
O desabafo de Cícero revelou a indignação com a forma como a abordagem policial foi conduzida. Para ele, se houvesse qualquer irregularidade, o procedimento deveria ter sido legal, e não o desaparecimento forçado.
“A gente não pode ficar por isso não, porque meu filho é inocente. Se ele fizesse qualquer coisa errada, tivesse pegado meu filho, que era uma criança, tivesse levado pra minha porta, pra gente resolver, porque vez ou outra é assim, não podia pegar e fazer uma coisa dessa com ele.”
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O desejo de um pai
Para o senhor Cícero, o julgamento é a oportunidade de finalmente obter respostas que lhe foram negadas por mais de uma década. Ele encerrou sua fala com um pedido desesperado por provas e pela humanidade dos acusados:
“Davi, meu filho, não sabe fazer nada… e eu quero que ele, né… já que meu filho foi embora, Deus toma conta do meu filho, mas pelo menos ele vai mostrar nem que seja o osso do meu filho, o local onde enterraram, o que foi… Eu quero que esse policial que fez com meu filho, eu não quero nada, eu só quero que ele mostre os ossos do meu filho e me dê qualquer coisa. E vai me dizendo o que é que meu filho estava fazendo. Eu sou o pai dele. Se ele pegou meu filho com roubo ou com fumo na mão, eu também quero que ele me mostre a amostra desse fumo ou o que for, a faca ou qualquer coisa. Eu quero saber o que meu filho fez.”,
Sobre o caso
Davi Silva, 17 anos, desapareceu no Conjunto Cidade Sorriso I, no Benedito Bentes, na manhã de 25 de agosto de 2014. Ele foi visto pela última vez durante uma abordagem de policiais militares do Batalhão de Radiopatrulha (BPRp). De acordo com o Ministério Público de Alagoas (MPAL), o jovem foi brutalmente torturado dentro da viatura, e seu corpo nunca foi encontrado.
Segundo relato do amigo do adolescente, Raniel Victor, o menor – que tinha dificuldade na fala – foi levado após ser flagrado com bombinhas de maconha. Os policiais, segundo a testemunha, queriam informações sobre o fornecedor da droga e se a boca de fumo pertencia ao traficante ‘neguinho da bicicleta’ , que era procurado pela polícia.
Raniel Victor foi assassinado dois anos depois, em 2016, com sinais de extrema violência. Seu depoimento foi fundamental para sustentar a versão de que Davi foi levado pelos militares após ser flagrado com pequena quantidade de maconha.
Durante a abordagem, Davi teria sido algemado, colocado na mala da viatura e espancado, inclusive com agressões em órgãos genitais.
A família do jovem vive há mais de uma década sem respostas definitivas. Em 2015, um corpo chegou a ser identificado como sendo de Davi, mas exames cadavéricos da Perícia Oficial descartaram a possibilidade.
Os quatro réus — três policiais militares da ativa e uma ex-PM — respondem por tortura, homicídio qualificado e ocultação de cadáver. A denúncia, apresentada pela 59ª Promotoria de Justiça da Capital ainda em 2015, sustenta que todos os acusados atuaram de forma conjunta na agressão e desaparecimento de Davi.
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