Lembro-me claramente do início da adolescência, quando eu e meus amigos da rua — sim, todo mundo morava em casas e brincávamos na rua mesmo — após jogarmos bola, garrafão, esconde-esconde e mais um monte de atividades lúdicas que nos faziam suar e arrancar o tampo do dedão. Pois é, houve uma época em que...

Lembro-me claramente do início da adolescência, quando eu e meus amigos da rua — sim, todo mundo morava em casas e brincávamos na rua mesmo — após jogarmos bola, garrafão, esconde-esconde e mais um monte de atividades lúdicas que nos faziam suar e arrancar o tampo do dedão. Pois é, houve uma época em que celulares e internet não existiam e, por isso, não tomavam 90% do nosso tempo e da nossa atenção.
Então, após tudo isso, sentávamos para jogar conversa fora e falar de tudo que era assunto, dentro das enormes limitações de informações e conhecimentos da época.
Uns deitados na calçada, outros em cima da bicicleta, outros sentados no meio-fio, e a conversa mole ia noite adentro:
— Rapaz, já pensou quando chegar o ano 2000? A gente vai estar no futuro e vai ter muita coisa diferente — puxava um.
— Vai ter carro voador e robô dentro de casa — opinava outro.
— Eu acho que vai ter foguete voando pelo espaço e talvez até visitando outros planetas cheios de extraterrestres — divagava um deles.
— Bom mesmo era que tivesse uma máquina pra gente ficar invisível. Já sei muito bem pra onde eu iria…
Nessa hora, caíamos todos na gargalhada, com a imaginação juvenil a mil por hora.
Nesse exato instante, em 2025, vejo o ano 2000, que há muito deixou de ser futuro, tornar-se cada vez mais passado.
Vejo o homem que me tornei, não mais divagando sentado no meio-fio junto aos amigos da rua. O que vejo é alguém carregado de histórias, vivências e penduricalhos que acumulei e conquistei ao longo de décadas. E esse homem, volta e meia, não fica lá com seus amigos da rua, mas agora cá com seus botões, lançando seu olhar para o mesmíssimo Ano 2000 — porém não mais imaginando, mas sim lembrando.
Quando me recordo do ano 2000, vêm-me lembranças importantíssimas: eu, na casa dos 30 anos, já era pai, ainda era filho e… Espírito Santo, amém. Profissionalmente, correndo feito louco e vendo as transformações pessoais, familiares e do mundo acontecerem. E é nesse último quesito que mais coisas ocorreram — e nem sempre para o bem.
Não, não havia carros voadores, nem robôs dentro de casa, muito menos foguetes pelo espaço (hello, Elon Musk!). E, pelo que sei, ninguém invisível foi visto por aí (ops!).
Mas o mundo estava se transformando no que é hoje: a geração millennial nascendo, certos valores morrendo e a grande divisão entre as pessoas surgindo a partir do campo das ideias. E é exatamente isso que vem tornando o mundo depois do Ano 2000 um lugar mais chato e até mais perigoso.
Pensamentos, sobretudo políticos, vêm afastando pais e filhos, patrões e empregados, vizinhos e antigos amigos. A internet, avassaladora e jamais imaginada pelos meus amigos futuristas e especialistas futurólogos, foi a principal ferramenta dessa transformação, dando voz — e berros — a gente doida e ressentida. Crenças e verdades pessoais são impostas, vícios e virtudes perigosamente relativizados, e o mundo que parecia seguir num caminho de paz e unificação descambou para um celeiro de almas angustiadas, sem rumos e propósitos bem definidos.
Sinto falta do restinho do mundo de antes, ali naquela virada de século, bem como da visão romântica daquele futuro que hoje é pura nostalgia.
A criança imaginava, hoje o adulto apenas recorda. Enquanto isso, a marcha inexorável do tempo avança, engolindo o calendário e trazendo, ano após ano, as transformações dos costumes e ideias que nós, seres humanos, usamos para mudar o mundo ao nosso redor.
Então, percebo que fomos enganados pelas nossas expectativas. O futuro deveria ter sido melhor imaginado.
E me pergunto: como será que os millennials estão imaginando o mundo daqui a 30 anos, deitados em suas camas, em seus grupos das redes sociais?
Talvez eles nem imaginem nada, já que já imaginaram por eles