Elis Regina eternizou a frase “viver é melhor que sonhar” na belíssima música Como Nossos Pais, de Belchior. Para mim, ainda adolescente, aquela frase era um chamado à realidade — o recado necessário ao jovem sonhador e extremamente reflexivo que sempre fui. Sim, os sonhos têm um papel importante na vida de todos nós. Porém,...

Elis Regina eternizou a frase “viver é melhor que sonhar” na belíssima música Como Nossos Pais, de Belchior. Para mim, ainda adolescente, aquela frase era um chamado à realidade — o recado necessário ao jovem sonhador e extremamente reflexivo que sempre fui.
Sim, os sonhos têm um papel importante na vida de todos nós. Porém, viver de fato era bem melhor, dizia a artista. Afinal, era a realidade — às vezes dura, às vezes saborosa.
Recentemente, assistindo a um jogo da Seleção Brasileira às vésperas da Copa do Mundo, diante de um resultado pífio e de uma apresentação decepcionante, o comentarista esportivo Bruno Formiga subverteu a emblemática frase, surpreendendo-me com um “sonhar é melhor que viver”. Referia-se ao fato de que toda a expectativa criada em torno do desempenho da Seleção nas vésperas da Copa era bem melhor que o jogo jogado naquele momento, jogando um balde de água fria sobre nossas cabeças sonhadoras e cheias de otimismo.
O resultado foi que eu, não mais adolescente e agora um senhorzinho, ouvi aquela frase com o mesmo impacto e provocação que sentira na juventude. Sim, entendi que, a depender do momento em que você se encontra, sonhar pode ser bem melhor que viver — seja às vésperas de uma Copa do Mundo, seja quando já se tem muito mais passado vivido do que sonhos por sonhar.
Se Elis Regina e Belchior me disseram na adolescência: “Não é proibido sonhar, mas procure viver a vida e experimentar seu sabor mezzo dolce, mezzo amaro; construa assim a sua história e ponha os sonhos em seu devido lugar: no campo das ideias e dos desejos, nem sempre destinados a se realizar”,
Bruno Formiga me alertou, aos cinquenta anos, que sonhar é bom e, às vezes, melhor até que a dura realidade.
Minha longa estrada já havia me dado sinais disso: o planejamento da viagem muitas vezes era melhor que ela própria. A expectativa, melhor que a experiência. Os projetos, planos e ideias nem sempre se tornaram algo realmente gratificante e auspicioso. Mas os momentos em que eram apenas sonhos — ah, esses alimentaram meus dias com a doce e inebriante expectativa, até que a realidade viesse bater de frente e amassar a lataria.
Por isso, continuo sendo um dos raros brasileiros que ainda projeta bons resultados, mesmo com essa Seleçãozinha meia-boca. A diferença é que agora pretendo sonhar apenas sonhos possíveis e factíveis. Nada de ser astro de rock, jogador de futebol ou subir o Everest. Contento-me em sonhar com uma vida mais simples, e reduzir o tamanho e a importância dos problemas. Trabalhar um pouco menos e contemplar um pouco mais.
Serão sonhos bobos, sim, porém mais ao alcance das minhas mãos, caminhando lado a lado com a doce e amarga realidade.
Então, posso concluir, misturando Belchior com Formiga, que
“Viver é tão bom quanto sonhar”