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Crônicas e Agudas por Walmar Brêda

Walmar Coelho Breda Junior é formado em odontologia pela Ufal, mas também é um observador atento do cotidiano. Em 2015 lançou o livro "Crônicas e Agudas" onde pôde registrar suas impressões sobre o mundo sob um olhar bem-humorado, sagaz e original. No blog do mesmo nome é possível conferir sua verve de escritor e sua visão interessante sobre o cotidiano.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

Bumerangue

Vejo nas redes sociais uma imagem mezzo foto e mezzo vídeo chamada de Boomerang – alusão ao objeto de caça dos aborígenes australianos que sempre retorna às mãos do lançador. Na verdade, trata-se de um loop temporal, onde o final se une ao início e vice e versa, gerando uma sequência infinita.
Bem, aprendemos desde cedo que tudo tem um fim e nada é eterno. Contudo, um loop ou um Boomerang, é capaz de eternizar, ao menos no mundo virtual, um instante animado que se repete continuamente.
Estamos nesse momento numa das melhores épocas do ano: as duas últimas semanas de dezembro, onde todo mundo fica meio estranho – no sentido positivo da coisa. Sentimos no ar um clima diferente que eu definiria como a mistura de fim-do-mundo com o nascimento-de-uma-nova-era. Ninguém quer levar a sério muitas coisas, nem tomar decisões importantes. Ficamos num hiato entre descanso e diversão, regado a festas e comilança. Nessa época, minha cidade, Maceió, torna-se especialmente uma das mais belas do país – sobretudo a sua orla, onde vemos milhares de pessoas nas ruas sempre em clima de festa e expressão de encantamento estampado nos rostos – é lindo de se ver. Além de tudo, ainda permito-me um pequeno recesso no trabalho que me permite fazer coisas que nunca faço, como por exemplo: não fazer nada.
Então, se um dia eu esbarrasse numa lâmpada mágica que me concedesse um único desejo, o meu certamente seria esse: um loop temporal – ou um grande boomerang – onde eu viveria apenas do dia 20 de dezembro até dia 01 de janeiro, onde o dia seguinte seria de volta a 20 de dezembro, assim sucessivamente, como no ótimo filme dos anos 80 “O Feitiço do Tempo”, onde o protagonista acorda sempre no mesmo dia, revivendo-o eternamente. Trabalharia uma única semana em clima de pré-recesso e viveria confraternizações, praias, natais e fim de ano indefinidamente.
Claro que eu sou capaz de imaginar que após uns dez loopings como esse, eu passaria da casa dos 100 kg, bem como também estaria mais liso que bumbum de neném – mas o que importa? Seria uma vida de novela se repetindo, se repetindo e se repetindo, até que…
…até que um dia eu mesmo iria me abusar e assim como o protagonista do filme, a bênção se tornaria uma maldição. Não aguentaria músicas de natal , nem peru de natal, nem a cidade cheia de gente, mensagens de Whatsapp com conteúdos natalinos, festas de fim de ano, sol esquentando o juízo, pouco trabalho, pernas para cima, confraternizações, comilança, quilos a mais, ressacas, gastança, tudo isso se repetindo, se repetindo, se repetindo…chega!!!
Pediria então ao senhor Gênio, que por favor me tirasse dessa. Iria querer minha vida de volta com a distância adequada entre o dia primeiro de janeiro e vinte de dezembro. Se essa época é encantadora, provavelmente é por ser longa a viagem que fazemos durante um ano.
Se pudesse ter um loop temporal, talvez então pediria para viver sempre dos 30 aos 50 anos, ou então meus filhos voltando a serem bebês após os doze anos, ou simplesmente que após domingo à noite retornássemos à sexta de manhã…
Bem, nada é para sempre – acho que felizmente. A vida segue sempre em frente e embora seja estruturada em loops temporais com dias, meses e anos que se repetem, são totalmente diferentes entre si – até nós mesmos nos tornamos diferentes a cada ano – então vamos vivê-los com a medida que nos cabe.
Sobre o próximo ano, o que posso desejar é simplesmente que 2019 lhe seja leve.

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