Blog

Crônicas e Agudas por Walmar Brêda

Walmar Coelho Breda Junior é formado em odontologia pela Ufal, mas também é um observador atento do cotidiano. Em 2015 lançou o livro "Crônicas e Agudas" onde pôde registrar suas impressões sobre o mundo sob um olhar bem-humorado, sagaz e original. No blog do mesmo nome é possível conferir sua verve de escritor e sua visão interessante sobre o cotidiano.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

Certo dia, ao encontrar um amigo de longa data, no meio da conversa ele me indagou:

— Rapaz, eu estava querendo falar com você.

— Claro, o que houve?

— Estou precisando fazer umas restaurações e uma revisão nos meus dentes e queria saber se você faz esse tipo de procedimento.

Então expliquei que fazia apenas ortodontia e cirurgia, o que o deixou meio entristecido. Logo em seguida, ele me pediu uma indicação e continuou a falar, contando o seu pequeno drama.

Ele me confessou que tratava com um dentista conhecido havia vários anos e que eram, inclusive, contemporâneos da época de escola.

Pois bem, acontece que certa vez, durante um atendimento, ele fora indagado pelo tal dentista se havia jogado na Mega-Sena da Virada, com aquele prêmio milionário de fim de ano. Meu amigo então respondeu que não, mas que estava pensando em jogar.

Seu dentista, então, continuou o assunto e afirmou, num deboche raivoso, que havia jogado sim e que, se por acaso ganhasse, no outro dia iria ao consultório, jogaria gasolina por todo canto e tacaria fogo em tudo ali — de preferência com alguns pacientes dentro — fez questão de afirmar.

Eu olhei para meu amigo com uma cara de espanto e, em seguida, soltei um “meu Deus”, seguido de uma sonora gargalhada.

Ele continuou sendo bastante sensato:

— Rapaz, se meu dentista diz uma coisa dessas com tamanha sinceridade e raiva, certamente ele não deve gostar do que faz — ou até odeie mesmo o seu trabalho e tudo lá dentro.

Fui obrigado a concordar.

E, finalmente, disse que, inevitavelmente, chegou a se perguntar se ele mesmo não estaria naquele rol de pacientes que iriam virar churrasquinho, nos devaneios cheios de ódio e cansaço profissional do seu digníssimo dentista.

Saí daquela conversa com algumas questões a me fustigarem as ideias. Primeiro, tive pena desse amargurado colega e, em seguida, um pouco de raiva por tamanha burrice. Como ser tão confessional logo para aquele que te sustenta, para o qual devemos dar o nosso melhor — ainda que não seja tão natural e sincero?

Vide garçons sorridentes, prontos para explodir, e demais prestadores de serviço que precisam demonstrar alguma simpatia e, vá lá, um pouco de felicidade aos seus clientes.

E, por último, o tal dentista agiu como aquele marido que, num evento social entre casais, diz, após algumas doses e na frente da sua esposa, que “caso se separasse, nunca mais na vida queria se casar de novo”.

Sua esposa, com certeza, teria sobre o seu marido os mesmos pensamentos que meu amigo, diante do dentista piromaníaco.

Veja Mais

Deixe um comentário