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Crônicas e Agudas por Walmar Brêda

Walmar Coelho Breda Junior é formado em odontologia pela Ufal, mas também é um observador atento do cotidiano. Em 2015 lançou o livro "Crônicas e Agudas" onde pôde registrar suas impressões sobre o mundo sob um olhar bem-humorado, sagaz e original. No blog do mesmo nome é possível conferir sua verve de escritor e sua visão interessante sobre o cotidiano.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

O calhambeque

Lembro há muitos anos, quando  meu filho, hoje um homem, era pequeno, bem pequeno, e nós o levávamos para passear no shopping e fatalmente acabávamos no Game Station -centro de entretenimento eletrônico e grande máquina de moer dinheiro. Os olhos do menino brilhavam diante de tantas luzes, cores e sons. Então eu comprava alguns créditos e punha no cartão do parque  e, ao fim deles, sentava meu filho em frente a um simulador de carro de corrida sem inserir crédito algum e ficava vendo,  cheio de remorso, ele ali girando o volante, fazendo curvas pra direita e para esquerda, acelerando e freando,  fazendo barulho de motor com a boca e crente que estava controlando o Fórmula 1 virtual. Tadinho dele! Como pude ser tão cruel? Mas, ele ficava tão feliz que naquele momento era o que importava, afinal qual a diferença, para ele, se havia crédito ou não, controle ou não ?

  Durante algum tempo acreditei que era possível ter algum tipo de controle sobre a vida.  Então eu vivia com a cabeça sempre algumas horas, dias, semanas e até anos à frente, na tentativa de antecipar-me aos fatos – o que gera somente ansiedade e frustração.  Mas, era assim que vivia por um longo tempo.
Hoje sei que a maturidade traz mais que rugas e dores no corpo: traz também compreensão e sabedoria.
Compreensão para entender as regras do jogo e sabedoria para saber jogá-las. Ao longo dos anos,  descobri sempre com alguma dor, que não controlamos coisa nenhuma e que planos, metas e sonhos, volta e meia são avassalados por um conjunto de variáveis que muitos chamam de acaso e outros de destino. Só há então duas coisas a fazer: uma seria viver “um dia de cada vez” com a mente sempre no presente e sem grandes metas e expectativas, ou então fingir que tem algum tipo de controle sobre os processos, planos e fatos que acontecem conosco a cada dia.  Bem, esse sou eu: finjo que estou no controle e fico lá, girando o volante, fazendo curvas para direita e para esquerda, acelerando e freando, fazendo barulho de motor com a boca, fingindo acreditar que estou controlando o calhambeque da minha vida -igualzinho ao meu filho. Tadinho de mim…

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