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Crônicas e Agudas por Walmar Brêda

Walmar Coelho Breda Junior é formado em odontologia pela Ufal, mas também é um observador atento do cotidiano. Em 2015 lançou o livro "Crônicas e Agudas" onde pôde registrar suas impressões sobre o mundo sob um olhar bem-humorado, sagaz e original. No blog do mesmo nome é possível conferir sua verve de escritor e sua visão interessante sobre o cotidiano.

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

O presente do futuro

Perguntei-a porque apegava-se tanto ao passado, tendo pouco ou nenhum interesse pelo futuro. Apesar da idade avançada, ela ainda teria muitos anos pela frente e o futuro sempre poderia trazer bons ventos. Porém, sua resposta foi contundente e desoladora. Afirmou que tudo devia-se à sua grande covardia e receio de sofrer -seu passado já havia lhe proporcionado todo mal e todo bem que lhes rechearam as páginas da sua história; entretanto, como passado tornara-se, este já havia sido assimilado pelo seu coração e sua mente. O futuro não, era cruel em sua imprevisibilidade e poderia carregar em si todo o mal possível. Não desejava, portanto, surpreender-se com sofrimentos à frente que só ele seria capaz de jogá-los em seu colo. Então cada dia ela enxergava com desconfiança e cada ano era visto com temor e desalento -era o futuro seu verdadeiro inimigo.

Perguntei-lhe então o que achava do presente, que estava ali, não à frente ou atrás, mas em todo lugar ao mesmo tempo e agora. Ela me disse que o presente não era nada -tratava-se apenas de algo efêmero que não durava nem um segundo; era apenas uma passagem, uma ligação entre o passado e o futuro, pois o que existia de fato era o lado de dentro e o de fora, sendo o presente apenas a soleira da porta -e por que diabos ela iria dar atenção à soleira da porta?- disse de forma bem humorada, mas não menos amarga.
Fiquei intrigado pensando nessa forma de ver a vida -geralmente acredita-se que o presente é que deve ser valorizado e apreciado; afinal, é nele que nos encontramos assim como tudo que é tangível e real. O passado já ficou para trás -a não ser que insistamos em mantê-lo vivo; e o futuro não existe de fato -pelo menos ainda não. Mas, ela me oferecia seus argumentos que faziam do presente uma passagem efêmera e ligeira como um piscar de olhos; e como temia visceralmente o futuro, vendo-o apenas como um possível palco de tragédias e desventuras, fazia questão de viver agarrada ao passado, pois tratava-se de um velho conhecido cujo conteúdo já era processado e assimilado em sua cabeça.
Entretanto, temos que compreender que no futuro encontra-se a doença, mas também a cura. De qualquer forma, o futuro só torna-se importante mesmo quando torna-se presente -não há porque temê-lo, portanto, como futuro.
Ao final, disse à tal senhora apenas que nossos passos nos levam sempre em frente, e que o futuro não deve ser temido, apenas aguardado como uma visita; e nós, como bons anfitriões, devemos recebê-lo de braços abertos e com um grande sorriso, esperando que ele também faça sua parte, nos oferecendo de preferência um belo presente.
Então que o próximo ano nos traga ótimos presentes.

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