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Papa Francisco: Por que o líder católico está preocupado com o futuro dos robôs

Academia Pontifícia da Vida

Papa Francisco na abertura do encontro da Academia Pontifícia da Vida, que discutiu questões éticas e morais em torno da tecnologia

Talvez o Vaticano não seja o primeiro cenário que venha à cabeça quando o assunto é robôs. Mas foi lá que cientistas, pensadores da ética e teólogos se reuniram para discutir o futuro da robótica e da inteligência artificial e o que significa ser humano.

À medida que a inteligência artificial de robôs se torna cada vez mais sofisticada, e eles são encarregados de cada vez mais tarefas antes restritas a humanos, como será que eles responderão aos dilemas morais de nossa sociedade? Como encaixar nossas noções de alma com a presença de robôs cada vez mais parecidos conosco?

O seminário “Roboética: Humanos, Máquinas e Saúde” foi sediado há cerca de um mês na Academia Pontifícia da Vida, criada há 25 anos, pelo papa João Paulo 2º, em resposta a rápidas mudanças em biomedicina. Seus temas de estudo incluem avanços em técnicas de alteração de genoma humano.

Tais técnicas, altamente controversas, foram supostamente usadas pelo cientista chinês He Jiankui, para alterar os genes de duas meninas gêmeas, para que elas não contraíssem HIV.

Na abertura da reunião, o papa Francisco apresentou uma carta “à comunidade humana”, na qual menciona o paradoxo do “progresso” e adverte contra o desenvolvimento de técnicas sem antes pensar nos impactos negativos que elas podem ter na sociedade.

Ele também enfatiza a necessidade de se estudar novas tecnologias, sejam elas de comunicação, biológicas, robóticas ou nanotecnologias.

“Antes de tudo é preciso compreender as transformações que se anunciam nestas novas fronteiras, para identificar como orientá-las ao serviço da pessoa humana, respeitando e promovendo a sua intrínseca dignidade. Uma tarefa muito exigente, dada a complexidade e a incerteza sobre os desenvolvimentos possíveis”, diz a carta de Francisco.

Robôs humanos

BBC

Professor Ishiguro criou um robô igual a ele mesmo e acha que, no futuro, conseguiremos transpor nossa alma a corpos inorgânicos

Em contraste com essa carta, um dos principais palestrantes do workshop, o professor japonês Hiroshi Ishiguro, que lançou a hipótese de que daqui a 10 mil anos não seremos mais reconhecidos como humanos de carne e osso.

Famoso por ter criado robôs bastante parecidos a humanos em seu laboratório da Universidade de Osaka – incluindo um robô igual a ele mesmo -, Ishiguro falou a respeito do que considera uma necessidade de evoluirmos para além de nossos corpos materiais, para algo mais duradouro. Isso abriria a possibilidade de armazenarmos nossa alma em uma outra carcaça, de nossa escolha.

“Nosso objetivo máximo de evolução humana é a imortalidade, substituindo nossa carne e ossos por material inorgânico”, argumentou.

“A questão é (adaptar nosso corpo) para caso algo aconteça no planeta, ou com o Sol, de modo a não conseguirmos viver no planeta e tenhamos que viver no espaço. Nesse caso, o que é melhor: materiais orgânicos ou inorgânicos?”

Para o arcebispo Vicenzo Paglia, presidente da Academia Pontifícia da Vida, a resposta é clara.

“Esse sonho é um sonho terrível”, afirmou ele, opinando ser “impossível” separar o corpo da alma.

“A carne é o corpo com alma, e a alma é o espírito com carne”, declarou Paglia. “O corpo é muito importante para seres humanos. Através do corpo nós amamos, abraçamos e nos comunicamos uns com os outros. De um lado, estamos cientes desse progresso incrível, mas de outro sentimos que esse avanço pode causar riscos ao mundo. O risco é esquecermos que somos criaturas, e não criadores.”

Direitos dos robôs

Criar robôs capazes de realizar tarefas humanas – até mesmo tarefas que exigem contato íntimo, como cuidar de idosos ou manter um relacionamento – é parte fundamental das pesquisas de Ishiguro.

“Temos um problema sério: a população japonesa vai cair pela metade daqui a 50 anos”, previu ele. Nesse contexto, em vez de contar com a mão de obra imigrante ou com um “baby boom” para conter o declínio populacional, ele sugere que usemos robôs.

“Não temos migração anual suficiente, e o Japão é um país isolado, é uma ilha. E nossa cultura é muito diferente de outros países. Não é fácil, em alguns sentidos, para estrangeiros sobreviverem no Japão. Essa é a principal razão pela qual estamos enlouquecidos atrás da criação de robôs.”

Uma das possibilidades vislumbradas é a de conseguirmos fazer o upload de uma mente semelhante à humana ao corpo de um robô, dando a ele as características de personalidade de nossa escolha. Algo que também levanta questionamentos.

O Grupo Europeu de Ética na Ciência e nas Novas Tecnologias (EGE, na sigla em inglês) lançou no ano passado um relatório enfatizando “as urgentes e complexas questões morais” levantadas pelo avanço da Inteligência Artificial na robótica.

O grupo defendeu a necessidade de um modelo coletivo e colaborativo de trabalho, de modo a definir um conjunto de valores em torno do qual a sociedade se organizaria, e o papel das novas tecnologias nisso.

“Um pedido da Comissão Europeia (braço executivo da União Europeia) era de termos reflexões éticas sobre o futuro de nossas sociedades e do trabalho, em uma época de robôs e inteligência artificial”, disse Christiane Woopen, líder do EGE e professora de Ética e Teoria da Medicina na Universidade de Colônia (Alemanha), que também esteve presente no evento do Vaticano.

O foco do grupo é estudar como direitos humanos se relacionam com robôs.

“Não compartilhamos da opinião de que robôs tenham de ter direitos”, disse Woopen. “Direitos pertencem a pessoas e dizem respeito a questões fundamentais, como dignidade humana e autonomia. Esses direitos se referem a pessoas, seres humanos, e à Carta fundamental de direitos da UE.”

Mas Ishiguro acredita que, quanto mais perto estivermos de ter robôs em nossas casas e em nossos círculos de amizade, mais teremos a inclinação natural de querer dar direitos a eles.

“Quando o robô se tornar um parceiro, uma companhia ou um amigo para nós, vamos querer protegê-lo”, argumentou. “Assim como damos algum tipo de direito aos animais, acho que vamos dar algum tipo de direito aos robôs também.”

Para Woopen, a ausência de uma distinção clara entre robôs e humanos e o nosso relacionamento com eles levantarão fortes questionamentos éticos.

“Se você imagina que, algum dia, haverá um robô que se comporta igualzinho a um ser humano, se move como ser humano e tem expressões faciais de um ser humano, como você vai decidir se essa entidade tem ou não uma alma?”, questionou.

“Nós os usamos para nossos propósitos, porque somos nós os seres que definimos os objetivos deles, escolhemos os meios e somos capazes de fazer o bem ou o mal, mas nós somos seres humanos livres. E acho que não devemos conceder essa liberdade a artefatos tecnológicos.”

Parceria ética

O Vaticano recentemente estabeleceu uma parceria com a Microsoft para oferecer um prêmio internacional de ética e inteligência artificial, depois de uma reunião privada entre o papa Francisco e o presidente da multinacional, Brad Smith.

O prêmio será entregue à melhor tese de doutorado de 2019 com o tema “inteligência artificial a serviço da vida humana”.

No ano que vem, a programação do encontro da Academia Pontifícia da Vida vai se centrar na inteligência artificial.

“Nós já enfatizamos a importância da pesquisa técnica, que é um grande presente que Deus nos deu”, afirmou o arcebispo Paglia. “Mas, à medida que ficamos parecidos a computadores, imediatamente vemos conflitos, perigos, desigualdades e às vezes uma terrível escravidão sobre o outro.”

A acadêmica Woopen destacou a necessidade de governos lidarem com essas questões éticas emergentes.

“Temos de agir mais rápido na Europa”, afirmou. “Mas acho que os governos já aprenderam que esses são aspectos cruciais a serem regulados e enfrentados, porque, caso contrário, eles moldarão nossa sociedade sem levar em conta esses governos.”