Uma papoula vermelha e cheiro de terra molhada

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Indo em direção à praia, vi no chão um caminho feito com uma trilha de papoulas vermelhas ainda frescas. Pareciam ter sido colocadas lá fazia pouco tempo, talvez por uma criança, talvez um amante a querer indicar um caminho, talvez…

Lembrei-me de minha mãe, aguando o jardim cheio de pés de papoulas, pela manhã e no início da noite, flores de várias cores, de folhas verdes e lustrosas, tão frágeis, tão lindas, que ela cuidava carinhosamente.

Fiquei a imaginar o que se passava pela cabeça dela durante aquele tempo de silêncio.

Essa curiosidade surgiu porque minha cabeça é naturalmente ruidosa e caminhando na areia,  perto do mar, com ar de maresia, parece que piora e fiquei a pensar se minha mãe, assim como eu, naqueles instantes aparentemente tão calmos ouvia de fato o silêncio ou simplesmente fingia estar em paz.

Dei-me conta que preencho muito do meu tempo com esses falsos silêncios, não sei por que emudeço diante de tantas coisas e enquanto permaneço calada, rodo na cabeça uma infinidade de respostas que não darei, encontro soluções para problemas que nunca terei, me protejo de ofensas que jamais receberei, num mundo de fantasias.

Os silêncios são bastante apropriados no abraço, no encontro do olhar apaixonado, na vigília do sono, quando são tranquilos. Desses quero “padecer”, o meu problema é a capacidade de emudecer uma declaração de amor pronta na garganta, a queixa antes que me envenene a alma, o pedido de desculpas quando me percebo errada, quando silencio o que sou.

Com a minha mãe não tem mais jeito, nossa comunicação só poderá se dar por saudade, eu pergunto, peço ajuda, conto histórias, caminho com ela ao “lado”, mas só tenho para recorrer às  recordações que ajudam a criar alguma resposta, que nem sei ao certo se seriam as dela. D Lucy não tem mais como me dá uma opinião fresquinha, fabricada na hora do acontecido, oportuna, só a vida tem…

Faz parte da minha lista de desejos “pensar menos e falar mais”, não falar demais (como faço com bobagens), mas usar menos freios no que tem valor, sem fazer aquelas pausas longas, quase teatrais, cheias de significados, insinuações dolorosas, eloquentes e simplesmente “dizer”.

Os silêncios mantidos com um nó na garganta, numa tarde inteira de espera, nem de longe são os mesmos daquele dos olhares cúmplices, não diminuem a ansiedade, não resolvem coisa alguma, em nada ajudam e ainda atrapalham. Se no momento das dúvidas o entendimento é difícil no diálogo, “muda” ē que não há solução.

Diferente do que faço, gostaria de agir mais ou menos como fantasio minha mãe, que falava à mim (e não ao espelho) as verdades que enxergava em palavras simples e depois de dito,  espalhava paz com cheiro de terra molhada.

Segui a procurar naquela trilha de papoulas vermelhas mais revelações que as possíveis no curto caminho traçado, torci para encontrar referências que indicassem um destino, quer seja para o fantástico mundo infantil numa brincadeira de domingo, tipo “Alice no país das maravilhas” ou para o mágico mundo do amor da cantiga “de pedrinhas de brilhante, só pra ver meu bem passar”, mas preenchidos com diálogos cheios de significados ou de silêncios carinhosos e contemplativos.

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