Inteligência artificial não é tão inteligente

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A inteligência artificial vai dominar a vida das pessoas. Essa afirmativa não ē minha e não é novidade, como eu me dei conta dela é que gostaria de confessar.

Eu tenho joanete, aquela deformação óssea no pé. Lembro exatamente como inicie esse problema. Usando sucessivamente um sapato tipo botinha, fechado, de bico fino e salto alto, produzido por um fabricante tradicional de jeans, que ampliou o negócio para outras roupas e sapatos descolados.

Eu era bem jovem e achava que aquele modelo me deixava elegante, mas sem o ar de “frágil patricinha” que os escarpins ou sandálias de salto agulha me davam.

Por conta desse problema cai na besteira de entrar num desses sites patrocinados que apresentam soluções mágicas. Olhei e, como sei que aquilo não funciona, sai pensando que não havia deixado rastros.

Qual o quê!! Não tem dia que eu não veja passar pela minha frente, com destaque, os mais variados utensílios propostos para resolver o problema do joanete. Parece até assombração, eu entro no facebook ou no email e lá está alguma “solução Tabajara”.

Eu já havia notado, por conta do turbulento período das eleições, que a inteligência artificial do facebook estava dando prioridade, para minha visualização, nas postagens daqueles amigos virtuais cuja as ideias eram mais parecidas com as minhas.

Logo entendi a lógica, se eu curtia uma determinada pessoa, eram as coisas dela que me seriam mostradas e dessa forma quase que “silenciaram” os demais.

Confesso que naquele momento não achei ruim, salvo poucas exceções, os debates tenderam a ser desrespeitosos, com algumas discussões públicas deprimentes.

Tentei não ferir ninguém, não revidei nenhuma provocação sem acreditar de verdade que seria uma troca franca e madura de diferentes pontos de vista, mas passada a eleição, continuo quase que vendo apenas as postagens das mesmas poucas pessoas.

Como eu só exclui duas ou três porque resolveram usar de palavrões e grosserias, imaginei que a mesma inteligência artificial que havia selecionado as afinidades políticas, ia ser inteligente o suficiente para reaproximar antigos afetos.

Só que não… foi aí onde me dei conta de que as relações de redes sociais têm a limitação do olhar, da expressão do rosto, do tom da voz, portanto, tem dificuldade na prática da tolerância e que colocando nosso convívio na mão de algoritmos artificiais corremos o risco da segregação.

Eu me entristeci muito com algumas afirmativas de pessoas que quero bem, algumas coisas me fizeram mal, sou de alma tola que sofre de verdade, mas não me torna mais feliz viver no mundo encantado de Alice onde todos pensem iguais a mim.

Minha formação profissional e pessoal foi feita na convivência com o contraditório, perdendo algumas causas, ganhando outras, errando em algumas avaliações ou acertando em cheio, mas sobretudo no esforço para entender o mundo plural.

Lamentei ter testemunhado a forma de agir de pessoas queridas, algumas mais queridas que imaginam ser e essa é uma ferida que precisa ser cicatrizada pelo bem da minha sanidade mental e a melhor maneira de fazer isso é cultivar laços.

Voltando ao joanete, razão primeira desse desabafo. Se ao invés de buscar informações em sites patrocinados eu procurar o conhecimento menos raso, saberei que existe uma infinidade de técnicas cirúrgicas, nenhuma muito melhor que a outra, que aqueles utensílios não têm muita utilidade e que a solução proposta é evitar práticas que agravem o quadro.

Sendo assim sei que não devo usar sapato muito alto, com bico fino que espremam o pé e sendo assim me dei conta que a mesma teimosia que uso para comprar sapatos, já que não me preocupo se são adequados, uso para conviver com os diferentes, continuo a escolhê-los me valendo apenas da emoção.

A inteligência artificial não é tão inteligente, acredito que é mais burrinha que imaginei, ela não considera teimosia como virtude e quando se trata de afetos, erra quem não acreditar na força que há no amor como fator agregador, mesmo contra todas as evidências.

Se quero de fato manter minha desejada sanidade convém não delegar todas as minhas escolhas exclusivamente por conta dessa frágil e fria desinteligência artificial.

Novembro 2018

Katia Betina

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