Comportamento solidário

Tem um ditado popular que diz: “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não entende da arte”.

Minha memória é repleta de ditos populares, que normalmente considero sábios, mas durante um almoço, esse em particular me fez questionar o quanto de opções precisamos adotar para acatar essa sugestão de comportamento como sendo a mais adequada.

Alguns dias na semana eu tenho a oportunidade de almoçar em casa com Pedro, e nesses casos quem faz o almoço sou eu. Nesse dia a que me referi decidi preparar carne e peguei um pedaço de filé. Ao invés de cortá-lo ao meio, achei por bem fazer medalhões, o que resultou numa porção impossível de ser repartida por igual.

Para simplificar, já coloco na mesa os pratos servidos, portanto tive que escolher qual de nós dois iria ficar com a maior parte e não hesitei em colocar para ele, afinal sendo mais alto e mais jovem, naturalmente precisa de mais quantidade de comida que eu.

Acontece que eu gosto de carne e para fazer isso eu precisei recorrer, ainda que sem pensar, ao significado de equidade, solidariedade, ou qualquer outro valor que fale ao ouvido que não sou o centro do universo.

Quando uma ideia dessas surge, rodopia na minha cabeça feito pião, dai eu ter preferido encarar minhas dúvidas a respeito do dito e me perguntei, porque fiz isso? Fácil, era para Pedro, meu único filho.

Não foi suficiente e tornei a questionar se faria a mesma coisa em não se tratando dele, e lembrei que diversas vezes com a casa cheia de jovens, primos ou amigos, abri mão dos “melhores pedaços”.

Continuava insuficiente, queria saber mesmo era se conseguiria fazer isso por estranhos, gente que nunca vi, que não sei quem são, que não atravessam meu caminho. E me animou imaginar que seria sim capaz, ainda que sempre haja uma ponta de dúvida…

Quem ensina essa capacidade de dividir? Onde aprendemos o significado de solidariedade? Quais lições ou experiências recebemos ou vivemos para acreditar que é possível ser feliz com um pouco menos? Conseguir uma resposta razoável reforçaria em mim a ilusão que comportamento solidário pode ser ensinado.

Por esses dias a imprensa divulgou um documento falando da situação mundial da distribuição de riquezas e o Brasil foi citado como tendo cinco pessoas com a mesma importância em dinheiro que metade da população mais pobre do País, e olhe que estamos falando de cem milhões de pessoas, um monte de gente.

Antes que alguém pense que sou completamente dissociada da realidade, me deixe explicar que nada tenho contra riqueza e que gostaria de ter mais dinheiro (ou melhor, ter dinheiro).

Minha comoção com essa desigualdade não nasceu comigo, ela foi aprendida vendo o mundo real e lendo um pouco dos estudiosos do assunto, eles sim, afirmam que esse é um cenário degradante.

Eu vou apenas me atrever a intervir declarando uma curiosidade, a de saber o que faz de diferente um milionário de um bilionário? Será que existe tanto conforto a mais nesses mega ricos que há na vida dos muito ricos? Ou a diferença é apenas na diversidade da carteira de aplicação financeira?

Não tenho a menor ideia de como começar a discutir a suspeita de que esse modelo de salve-se quem puder que adotamos, poderá nos levar ao fracasso como homo sapiens que um dia disseram que somos, e levianamente penso que a falta de necessidade de dividir uma porção de carne pode ter tirado desses cinco imortais a capacidade de enxergar o mundo com olhos de solidariedade.

A vida com preocupações terrestres como por exemplo, a fome do miserável, o preço do gás, a conta da energia, a falta de água potável, ocupa tanto o meu cotidiano que sequer sei como dar um pitaco se o assunto é bolsa de valores ou juros extorsivos.

Mas voltando ao almoço de casa, tenho certeza que apenas fiz com Pedro o mesmo que minha mãe fez comigo na hora de servir comida e assim como ela, o fiz de forma silenciosa, portanto não tenho certeza se foi aí que aprendi, mas quero muito acreditar que alimentá-lo da melhor forma tenha ajudado a criar um comportamento solidário, sem dúvidas a respeito da necessidade de dividir.

Quem parte e reparte jamais devia se sentir bobo por fazer isso da forma mais justa e a arte é espaço dedicado à beleza e não a arbitrariedade, desigualdade ou desrespeito.

Janeiro de 2018

 

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