Documentário mostra práticas ressocializadoras do sistema prisional alagoano

Despertar a capacidade de cada apenado em reescrever sua própria história. Foi com este objetivo que a neurocoach Rita Diaz decidiu conhecer o sistema prisional alagoano e mostrar sua experiência junto aos reeducandos do Núcleo Ressocializador da Capital (NRC). Idealizadora do projeto Produtiva Mente, ela resolveu produzir um documentário para retratar o alcance das ações da Secretaria de Ressocialização e Inclusão Social (Seris), responsável pelas 10 unidades prisionais do estado. O lançamento acontece no próximo dia 31 de maio, às 19h30, no Cine Arte Pajuçara, em Maceió.

Produzido pelo estúdio Nato, o documentário tem pouco mais de 27 minutos e ressalta a importância das práticas ressocializadoras desenvolvidas no núcleo, onde todos os reeducandos estudam e trabalham. Para ingressar na unidade, o candidato precisa se submeter a uma avaliação dividida em cinco etapas e realizada por equipe multidisciplinar, composta por profissionais como psicólogo e assistente social, seguindo várias regras de convivência.  E tal metodologia fez do núcleo um exemplo para o país.

Prova disso é que a unidade não registra, há dois anos, casos de reincidência envolvendo egressos do sistema prisional, o que chamou a atenção da neurocoach. Hoje, Rita Diaz é responsável pelo curso desenvolvido especialmente para os reeducandos do Núcleo Ressocializador e que vai formar, ainda este ano, dez coaches. Surpresa com tamanha receptividade, a também analista comportamental buscou o apoio da Seris para disseminar tais exemplos de superação, iniciando as tratativas do “Além das Grades”.

“Foi um grande desafio porque tínhamos como meta produzir algo que, ao invés de despertar raiva, fomentasse a compaixão das pessoas. O documentário, inclusive, nasceu de uma ideia que tive na cozinha de casa. Ele surgiu exatamente da necessidade de se mostrar o trabalho pioneiro e de excelência realizado pela Seris no Núcleo Ressocializador, explorando a mente dos reeducandos. Até imaginei que não conseguiria por acreditar que eles não entenderiam a proposta da neurociência aplicada ao coach, mas eles responderam muito bem ao conteúdo das dezenas de palestras ministradas até aqui”, conta a neurocoach cuja primeira turma já reúne 40 alunos.

Com as aulas, todos foram estimulados a assumir responsabilidades, despertando-os também para as habilidades que estavam adormecidas em meio ao encarceramento. “O ambiente do núcleo propiciou tudo isso. Pudemos explorar questões diversas, como o relacionamento interpessoal dos reeducandos, que são os principais atores desse processo. Afinal, de nada adianta o nosso empenho se eles não estiverem dispostos a mudar, para que saiam efetivamente melhores do que entraram. Nosso trabalho não é a solução, mas um caminho a seguir com vistas à segurança pública, quebrando o estigma de que todos os presos, incluindo os que nunca tiveram sequer uma oportunidade, não podem retomar o convívio social após o cumprimento da pena”, analisa o coordenador do projeto Produtiva Mente, Armene Wartanian, que também contribuiu com o documentário.

E Rita Diaz reforça que o objetivo do documentário não é “premiar” o preso, mas tão somente ampliar seu leque de possibilidades. “A pessoa não pode carregar consigo as consequências do crime que cometeu pelo resto da vida. Por isso é que não buscamos saber o que cada um deles fez para ser preso. Afinal, não podemos julgá-los. A Justiça existe para isso. E é por isso que, hoje, o respeito e o carinho são mútuos. A relação com a família também melhorou bastante. Já estamos no terceiro módulo e, no último, vamos levar hipnose e constelação familiar aos reeducandos, entregando, em dezembro, o certificado para os dez coaches ao término do curso”, emenda a neurocoah que também pretende estender o trabalho ao Presídio Feminino Santa Luzia.

O secretário de Ressocialização e Inclusão Social, coronel PM Marcos Sérgio de Freitas, por sua vez, reforça não haver superlotação no Núcleo Ressocializador, que oferta toda a estrutura necessária à reintegração social do reeducando. “O trabalho desenvolvido no núcleo é um sucesso e, por isso, tornou-se referência nacional. A prova é tal que, em muitos casos, são os egressos do sistema prisional alagoano os que mais se empenham entre os profissionais contratados por várias empresas públicas e privadas”, destaca o secretário, acrescentando que, no Brasil, a taxa de reincidência estimada é de 70%.

Palavra do reeducando

E os reeducandos atestam o alcance da metodologia aplicada no Núcleo Ressocializador. João Henrique Alves, por exemplo, confirma que o tratamento, da direção aos agentes penitenciários, “é totalmente diferente”. “Ter a chance de trabalhar já é uma grande conquista para todos nós. Aqui, somos de fato tratados como gente”, afirma o reeducando. “Nós recebemos nossos familiares sem nenhum tipo de constrangimento. Eles não se sentem numa prisão”, emenda Jadielson Barbosa, que também cumpre pena na unidade modelo.

Outro exemplo de ressocialização é o de Cícero Alves, que deixou o sistema prisional após concluir, mesmo custodiado, o curso de Administração. “Entrei com somente o ensino médio completo e, graças à oportunidade que tive no Núcleo Ressocializador, pude fazer vários cursos profissionalizantes e concluir minha formação superior. Agora, vou partir para a minha segunda graduação, desta vez em Gestão Pública”, conta o reeducando que está entre os primeiros do Brasil a cursar uma graduação ainda no regime fechado.

Fonte: Ascom/Seris

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