A imagem do espelho

Fiz as pazes com o espelho… calma, eu não fiz as pazes com todos os espelhos, estou de bem apenas com o espelho do elevador do meu prédio, o mesmo de quem já fui durante muito tempo grande inimiga.

O elevador tem espelhos em três das quatro “paredes”, replicando tudo infinitamente, inclusive e principalmente os defeitos, além disso, tinha uma luz muito forte que era capaz de apontar desde uma grande falha, até uma ruga pequenininha, (mesmo olhando de longe) e isso não era bom, mas o ápice do meu desapreço aconteceu no dia que entrei, toda arrumada, para ir a um casamento e vi que o decote mostrava nas costas as marcas da idade.

Fiquei tão triste que no dia seguinte da festa eu dei a roupa e em represália, rompi relações com o espelho do elevador e passei a sentir uma raiva danada dele.

Essa minha intriga só se resolveu com a crise financeira atual, que fez o condomínio trocar as lâmpadas por outras mais fracas e agora para ver algum detalhe, preciso chegar muito perto do espelho e ele embaça com a respiração.

Para o porteiro não me julgar doida através das câmaras instaladas, não me aproximo, não faço pose para foto, não fico olhando diretamente abestalhada com a minha imagem e foi exatamente essa distância que mantenho que me possibilitou perceber que, na penumbra, ele EMAGRECE…

Com a idade o espelho deixa de ser queridinho e em nada reflete aquilo que achamos que somos. A imagem que vemos não é mais a nossa, mas a de alguém cujo tempo passou sem autorização.

Eu olho e não acredito que sou eu aquela que aparece refletida, cheia de assinaturas do passar do tempo, tão diferente daquela que já fui e mais diferente ainda daquela que imagino ser.

Isso me parece ser uma grande contradição da modernidade, que nos faz acreditar que somos poderosos, nos incentiva para assumir um monte de compromissos, não deixa espaço para entender que temos limitações, mas não ensina como segurar o tempo, e ele passa…

Melhor que tentar nos iludir, dizendo que envelhecer é fazer parte da melhor idade, ou que não podemos dar sinais do passar dos anos, seria desenhar um mundo para a nova realidade de aumento da expectativa de vida, com políticas que pudessem incentivar um viver mais saudável, mais humanizado e menos idiotizado, que não empurrasse para o abismo da ilusão de acreditar que podemos ser eternamente jovens.

Envelhecer é a alternativa para morte precoce, é a oportunidade de se desfazer de um monte de peso e de responsabilidades da juventude e isso não devia ser motivo de tristeza ao olhar o espelho, ao contrário, devia ser motivo para comemorar cada ruga como um pedaço de vida vivida.

A idade muda o corpo pra pior, mas também pode mudar o que somos para melhor. Podemos ser mais compreensivos, menos preocupados com tolices, mais verdadeiros nos nossos desejos, menos arrogante, ou seja, o saldo não é tão negativo assim, por que então ficamos tão reféns da aparência?

Gosto da ideia de me cuidar pensando na saúde, mas ainda não dei conta de aceitar que isso não muda minha idade. Nos espelhos quando vejo a mim, percebo o quão longe estou de aceitar a realidade e a vida é tão passageira para brigar com o imutável.

Mesmo refletindo a esse respeito, minha única conquista foi fazer as pazes com o espelho do elevador, pelo menos nele eu aparento ser mais magra e agora sem tanta luz, finjo acreditar que não tenho tantas marcas, mas claro, sem usar decote que denuncie essa farsa.

Dezembro de 2019

 

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