Teatro de Arena Sérgio Cardoso chega aos 48 anos com celebração virtual

Vídeo produzido pela Diteal conta a história da casa e apresenta a cultura hip-hop

As cortinas se fecharam, a luz apagou, o palco pausou, artistas buscam caminhos, figurino e adornos estão engavetados, os técnicos aguardam a cena, a produção segue cheia de ideias, os projetos se voltam para o digital e é lá onde fica a plateia. Este é o cenário que vivemos com a suspensão das atividades, provocada pela pandemia da Covid-19. O teatro e toda sua magia fazem muita falta.

É neste contexto que o Teatro de Arena Sérgio Cardoso chega aos seus 48 anos de existência. Um espaço forte, importante e representativo das artes cênicas de Alagoas. Para não deixar a data passar em branco, mesmo em tempos tão difíceis para toda a sociedade, a Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (Diteal) produziu um vídeo que conta a história do Arena e apresenta a cultura hip-hop.

“O Teatro de Arena Sérgio Cardoso é uma casa que acolhe muito bem os artistas alagoanos e com muito orgulho. A comemoração do aniversário do espaço faz parte da agenda fixa de eventos da Diteal. Este ano, tivemos que nos readaptar e elaboramos um vídeo para dar parabéns ao Arena, abraçar os nossos artistas e dialogar com o público. Agradecemos aos parceiros e convidamos a todos para esta celebração virtual”, afirmou a diretora presidente da Diteal, Sheila Maluf.

Em 2017, nascia a Mostra Alagona de Cultura Hip-Hop, fruto de uma parceria entre a Diteal e o Coletivo Nois Q Faiz, nas comemorações ao aniversário do Arena. Este ano, a Mostra chegaria a sua 4ª edição, o que não foi possível, mas esse universo cultural e seus elementos se fazem presentes de forma virtual e, assim, o teatro ressurge para contar um pouco de si.

O vídeo, disponível pelo site diteal.al.gov.br, nas redes sociais e no canal do Teatro Deodoro no Youtube pelo link: https://youtu.be/YxQkVKhUhgs, traz composições do Fernando Rozendo, mais conhecido como MC Tribo, depoimentos dele, dos MCs Elhy Santhos e Diego Verdino, do grafiteiro Raffa e do gerente artístico e cultural da Diteal, Alexandre Holanda, além de recortes das Mostras.

O audiovisual inicia mostrando o trabalho do Fernando Rozendo, músico, produtor cultural e educador popular, mais conhecido como MC Tribo, que trabalha com música desde os 15 anos. Em 2010, ele fundou a banda Favela Soul, com o amigo Laedson. O grupo tem no currículo premiações, como o 3º lugar no Femufal e 1º lugar no Festival Em Cantos, produzido pela Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas. Como educador, participou de projetos como Na Base da Cultura e Vida Nova nas Grotas, da Secult/AL, utlizando o hip-hop como ferramenta pedagógica. Em 2014, ele criou o Coletivo Nois Q Faiz com o parceiro Diego Verdino, com o objetivo de fortalecer a cena e seus artistas.

“Todos esses trabalhos que me envolvi e me envolvo têm um fundamento na cultura hip-hop, de periferia, que propicia ao jovem enxergar o mundo de um jeito diferente, se vendo como o autor da sua história, como ator principal, e poder descrever, de forma autônoma, através da cultura e da arte a sua história”, conta MC Tribo.

Ele cita as expressões artísticas que compõem o universo do hip-hop. “É uma cultura, que envolve quatro elementos artísticos, criada nos Estados Unidos, por volta de 1970 e que chega ao Brasil forte através do break – forma de dançar bem peculiar, com movimentos bruscos no chão. Também temos o grafite, o MC que é o responsável por ser o cronista da realidade, quem narra as histórias, tem a voz do hip-hop, e o DJ, que cria as trilhas sonoras por onde o MC vai caminhar, e o bboy e a bgirl vão dançar. O hip-hop vai além de uma música, de um estilo de dança, é uma cultura responsável por resgatar várias vidas na periferia, inclusive, desse que vos fala”.

MC Tribo fala, ainda, sobre sua estreia no palco do Deodoro. “Quando estávamos buscando espaço para apresentar repertório autoral, esbarramos na falta de oportunidade. Através do Carlos Alberto, parceiro nosso, a gente veio se apresentar no Teatro Deodoro é o Maior Barato e foi um experiência incrível estar no palco do Teatro Deodoro. Pela primeira vez, eu pude apresentar um show meu e em um espaço que era distante pra mim. Passava na porta e não imaginava que um dia estaria ali, era algo muito distante e, hoje, a gente percebe que não é dessa forma. Uma coisa que me marcou nesse projeto, foi quando terminou o show, a pessoa do gerente artístico e cultural da Diteal, Alexandre Holanda, veio até mim e disse o seguinte: “esse espaço aqui é pra ser ocupado por vocês da periferia, precisamos de vocês aqui” e aquilo não saiu da minha cabeça”.

O músico contou também sobre como surgiu a parceria com a Diteal. “Em 2017, procuramos a Diteal para firmar uma parceria na busca por esses espaços para poder fazer o movimento alternativo acontecer. Foi quando o Alexandre Holanda propôs um espaço na programação de comemoração do aniversário do Teatro de Arena Sérgio Cardoso e a proposta era que a gente integrasse com alguma ativiade. Daí, surgiu o pensamento da Mostra Alagoana de Cultura Hip-hop, um evento que acabou entrando no calendário daqui do estado e de grande importância para os artistas que estão começando e os que já desenvolvem o trabalho porque é um palco totalmente democrático, onde tivemos participações de várias pessoas, independente de gênero, credo, podemos perceber a ocupação do Complexo do Teatro Deodoro de uma forma íntegra e essa parceria se firmou nos três anos consecutivos, tendo também a presença de artistas de fora, como foi o caso do MC Marechal, artista de nome no hip-hop nacional. Esse evento ocorre no seguinte formato: é um dia inteiro de atividades, passando pela roda de conversa, uma parte mais formadora, pelas batalhas de rima, de break, apresentações de grafite e se encerrando com shows no Teatro de Arena, um espaço de resistência na cultura alagoana e que se correlaciona muito bem com a história do hip-hop, que é resistir, buscar esses espaços. Fico muito feliz e falo em nome de toda a equipe Nois Q Faiz e Favela Soul, tem sido muito importante pra gente ocupar esses espaços, resistir e permanecer fazendo cultura no Estado de Alagoas”, conclui.

O gerente artístico e cultural da Diteal, Alexandre Holanda, falou no vídeo sobre a parceria de sucesso com o Coletivo Nois Q Faiz. “O ano de 1972 foi muito difícil, de repressão, de ditadura, mesmo assim, Alagoas consegue trazer mais um palco para o seu cenário local. Esse palco se torna de resistência, histórico, muito importante para os artistas e fazedores da cultura e da arte aqui no estado. Dando um salto de 1972 para 2017, quando fechamos uma parceria com o Nois Q Faiz, criamos grandes e importantes momentos na cena alagoana. É uma proposta séria, de continuidade, que traz a periferia, onde temos a maior força do hip-hop, para as instituições públicas, aos palcos alagoanos, o que é muito importante, e essa parceria continua. Estamos, nesse momento, celebrando a fundação do Teatro de Arena Sérgio Cardoso, a parceria com a Nois Q Faiz, com a periferia. Nós passaremos, quem estiver aqui que se faça passarinho para deixar a porta sempre aberta e para trazer todas as manifestações artísticas e culturais de Alagoas para dentro dessa casa e, de dentro dessa casa, de Alagoas para o mundo. Parabéns, Teatro de Arena e Nois Q Faiz.

A MC Elhy Santhos deixou registrado o seu depoimento sobre a participação das mulheres no movimento hip-hop e sua contribuição na Mostra de Cultura Alagoana Hip-hop. “Lembro de ter subido no palco e a galera cantado comigo, me arrepiado, aquela vibe maravilhosa, energia positiva. Desde os anos 80, quando o hip-hop veio ao Brasil, as mulheres sofreram preconceito para conquistar espaço na cena, isso tem mudado. Cada vez mais, eu vejo as mulheres reivindicando o seu espaço no rap, no break, no grafite. Sem falar do espaço maravilhoso, que é o Teatro de Arena. A periferia ainda não está acostumada com esse espaço, mas sim com as ruas, favelas, onde puder colocar uma caixa de som e foi uma grande satisfação (estar no teatro). Quero agradecer a todos”, concluiu.

Em seguida, no audiovisual, é a vez do MC Verdino: “As atividades, da mesma forma que são feitas na rua, a gente levou para dentro do espaço do teatro, sem tirar a cara, sem perder a identidade. A mulecada sempre se sentiu à vontade, tem uma estrutura legal de som e dá um gás, com certeza”, acrescenta.

Representando a arte do grafite, Raffa continua: “Queria falar da importância de ter participado da Mostra Alagoana de Cultura Hip-hop. Nessa edição que participei como grafiteiro, realizei um painel, em uma superfície de MDF, com alguns artistas, e foi bem legal participar, dentro de um prédio histórico. Bem legal a interação do antigo e contemporâneo e ver o público se adaptando lá. Só tem a acrescentar na cena como grafiteiro, artista e como pessoa. Muito bacana”, pontuou.

Sobre o teatro:

Em 14 de julho de 1972, Alagoas recebia o Teatro de Arena Sérgio Cardoso, cuja inauguração ocorreu com a apresentação do espetáculo “O Homem da Flor na Boca”, de Luigi Pirandello, que tinha no elenco os atores Sérgio Cardoso, Jardel Melo e a atriz alagoana Nana Magalhães.

Idealizado pelo ator e então diretor do Teatro Deodoro à época, Bráulio Leite, o Arena foi construído e inaugurado no governo Afrânio Lages, aproveitando estrutura física já existente, onde funcionava o Bar Deodoro. A inauguração contou com a presença de personalidades do teatro brasileiro, como embaixador Paschoal Carlos Magno, que liderava no país o movimento de teatro amador.

Um mês depois de inaugurado, falecia o ator Sérgio Cardoso. Em sua homenagem, o Teatro de Arena recebeu o nome dele. Durante a ditadura militar (1964-1985), o Arena fez história, foi colocado à disposição dos poucos grupos de teatro amador de Maceió, que se mantiveram atuantes, apesar das restrições impostas à liberdade de expressão. Entre eles, a Associação Teatral das Alagoas (ATA), que existe até hoje e é o grupo mais antigo de Alagoas, à época, constituído por universitários, liderado pela atriz Linda Mascarenhas, a grande dama do teatro alagoano.

Ainda sobre seus momentos mais marcantes, destacamos Hoje é dia de Rock, de José Vicente e execução de cenários de José Cabral, o primeiro grande sucesso de crítica e público das artes cênicas de Alagoas, encenado no palco do Teatro de Arena Sérgio Cardoso. Foram 18 apresentações consecutivas, com plateia lotada.

O Arena é administrado pela Diretoria de Teatros do Estado de Alagoas (Diteal) e tem capacidade para 180 espectadores. Atualmente, o Teatro de Arena Sérgio Cardoso, além de sua programação cultural fruto de locação do espaço, abriga o projeto Quinta no Arena, sempre contemplando espetáculos alagoanos de artistas, grupos e companhias locais nas categorias artes cênicas (teatro, dança e circo) e música (popular e erudita).

Com um formato intimista, que permite contato maior do artista com o público, o Teatro de Arena Sérgio Cardoso faz parte da história de muitos artistas e grupos culturais alagoanos que viveram grandes momentos nesta casa. Anexo ao Deodoro, seu palco já recebeu milhares de espetáculos locais e nacionais ao longo de sua existência, um espaço almejado, querido e respeitado pela classe artística.

Fonte: Hannah Copertino/Diteal

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