Repressão identifica o “Lamarca alagoano”

A experiência no Araguaia aguçou a repressão em Alagoas; quando a tropa alagoana voltou da missão, o S-2 (Serviço Secreto) do exército passou a atuar dentro da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para identificar os estudantes que atuavam no movimento político clandestino e, em 1973, acabaram prendendo vários universitários, entre eles os irmãos Breno e Denis Agra; Jéferson e Fernandes Costa; Denisson Mezeses, Norton Sarmento, Flávio Lima, entre outros. Também prenderam os pais de Jéferson e Fernandes, além de Paulo Romero, atual advogado do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas, que é amigo da família.

“Eu sabia do envolvimento do pessoal nesse movimento político, mas eu não tomava parte; era apenas amigo da família e só por isso fui preso. Passei dois dias preso, depois eles me soltaram quando confirmaram que eu não tinha nenhum engajamento político, não sabia dos detalhes nem dos objetivos. Foi uma época perigosa, porque o País vivia sob o regime de exceção e qualquer um poderia ser preso, bastava que eles desconfiassem, basta a mínima suspeita. Eles não investigavam para prender; pelo contrário, prendiam para investigar. Mas eu não cheguei a ser torturado, como já falei, era apenas amigo da família, do Jéferson e do Fernandes. Quem sofreu torturas foram eles, o Denis Agra, o Breno, o Denisson…esses sofreram muito, principalmente o Dênis e o Denisson Menezes”, lembrou o advogado.

AS PRISÕES

Tudo começou no Recife, com a prisão de vários estudantes e operários que cuidavam da formação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário – PCBR. Sob tortura, os presos confessaram que havia uma célula do PCBR em Alagoas, dentro da Ufal, principalmente no curso de Medicina, e apontaram os líderes: Denis Agra e Denisson Menezes. Um dos líderes do PCBR era o alagoano Manoel Lisboa, que também cursava Medicina, no Recife, e sua companheira, Selma Bandeira, natural de Delmiro Gouveia, médica e que chegou a se eleger deputada estadual pelo PMDB – faleceu tragicamente em acidente automobilístico na Ladeira do Catolé.

De acordo com o relato do advogado Paulo Romero, a repressão no regime militar queria arrancar dos presos a confissão sobre o paradeiro de Selma e do marido dela. “As torturas que o pessoal sofreu foi mais para que contasse onde a Selma estava, o que ela fazia e pensava. Ela e o marido. Mas ninguém disse nada, ninguém entregou nada e eles (a repressão) se revoltavam, ficavam mais violentos. De nada adiantava, porque o pessoal suportou as torturas físicas e psicológicas sem entregar ninguém. Nada”.

LAMARCA ALAGOANO

Entre os presos políticos, dois chamaram a atenção: Denis Agra e Denisson Menezes. O primeiro pela integridade; mesmo diante das torturas, quando o inquisidor (um oficial do exército) lhe perguntava o que ele era, Denis respondia: comunista. E levava “telefone” (tapas nos ouvidos com as mãos espalmadas), choque-elétrico e ficava no “pau-de-arara”, além de ter sido enterrado até o pescoço para ficar ao sol à pino sem direito a beber água. O local das torturas era o galpão da Petrobrás localizado por trás do Supermercado Makro, no Tabuleiro dos Martins, e um terreno baldio onde hoje está localizada a Cidade Universitária.

Com Denisson Menezes a repressão também foi rigorosa devido ao detalhe que revoltava os militares: Denisson era oficial do exército (R2) e, quando foi preso, estava de serviço como oficial-de-dia. R-2 é todo oficial oriundo do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva (NPOR), que prestam serviço temporário. Além do fato de Denisson ser segundo-tenente, o comando do então 20º BC (hoje 59° BIMtz) estava indócil por causa do sumiço de armas do quartel no Farol. Entre 1970 e 73 desapareceram do quartel vários Fuzis Automáticos Leves (FAL), pistolas ponto 45, cantis e munição – e as suspeitas foram para o tenente Denisson, considerado pela repressão como o “Lamarca alagoano”. A jornalista Iara Malta, filha de Denisson, conta como se deu a prisão do pai.

“Meu pai já desconfiava de que algo estava para acontecer, tanto é que minha mãe conta que ele, ao ir para o quartel, pediu para que ela ligasse para ele depois das 8 horas da noite. Ligue para mim, peça para falar com o oficial-de-dia; se eu não atender o telefonema é porque estou preso”, lembra Iara Malta, entre emocionada e orgulhosa.

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