A violência é a mesma, as vítimas são outras

Andam pregando – como se fossem os profetas do apocalipse com a laranja mecânica em mãos – que a barbárie tomou conta da cidade. Seqüestros, assaltos, homicídios, enfim, uma onda de violência que sugere “o fim do mundo”. O único motivo para o pânico é o fato da vitrine do terror estar na classe média. Aquela que adoraria ser rica e detesta se aproximar do mar da pobreza. O medo destes pequenos notáveis burgueses é a tradução atrasada de uma situação que sempre existiu.

Vejamos números. O ano passado – em Alagoas – o IML e a Polícia Militar registraram cerca de 400 homicídios. O número é bem próximo ao deste ano. Em matéria de assaltos, foram quase 2000 em 2004. Este ano o número parece estar um pouco abaixo da média, ainda não ultrapassou 1.500. A diferença é a escalada do crime. Antes, as vítimas da violência eram encontradas em grotas. Pertenciam às grotas. Eram anonimamente pobres. Perambulavam como fantasmas sociais, escória de uma minoria encastelada. Dançavam ao som da miséria na periferia.

Eis que agora a violência toma conta do centro da sociedade. Como acontecem em todas as grandes cidades que não planejaram o que fazer com os pobres, que não se armaram, nem lutaram para diminuir distâncias sociais. A classe média e a rica agora são vítimas do que produziram. Vão morrer na ponta da faca. Os números são os mesmos, as vítimas é que mudaram. Em outras palavras, “quando pisam no meu pé, dói mais do que quando pisam nos pés dos outros”.

A burguesia histórica anda presa dentro de casa, uma vez, que a escória do capitalismo vai tomar as ruas. Esta é a síntese da barbárie, de uma forma chula. Tão chula e irracional quanto serão todas as mortes, por razões lógicas ou inexplicáveis, daqui para frente. Não creio que possa haver como controlar a violência. Ela se enraizou no discurso positivista, no determinismo.

São as conseqüências de um Iluminismo que veio como a salvação do mundo e foi uma bela lorota sobre igualdade, fraternidade e liberdade. A violência de hoje – nos grandes centros – tem características parecidas com o baque da bolsa de Nova York em 1929. É o grande caos social de um estado que faliu. Pela falácia dos ideais, pela ilicitude dos poderes corrompidos, pelo descompromisso do individualismo, pela crença nos salvadores da pátria (leia-se de Vargas ao PT), pela ausente capacidade de enxergar nossa culpa, pelos cenários de favelas terem ficado comuns, enfim…Por tudo aquilo que somos, dentro de nossos muros e nossas grades.

A fossa social das nossas atitudes com cheiro de dejetos coletivos explodirá. Será um salve-se quem puder. Compre seu trinta e oito se puder e avante. As leis sempre serviram para poucos, nunca foram de todos. O primeiro reflexo de um estado, onde a violência afeta diretamente os “inocentes do poder”, será o destituir de suas próprias leis, para a imposição de um código de Hamurabi, que servirá apenas para punir o crime da miséria.

Em breve será diminuída a idade penal, aprovada a pena de morte, colocado mais policiais violentos em favelas, feita uma reunião por semana com a cúpula da segurança pública, aumentado os lucros das empresas de segurança particular. Em meio às leis, o capitalismo fará da violência um negócio rentável. Serão corrompidos os presídios. É preciso bandido nas ruas para vender os apetrechos de segurança privada. É preciso fazer vista grossa, para que alguns lucrem. Teremos uma falsa sensação de mudança, mas de fato não mudou nada. Assim como este ano foi igual ao ano passado. A diferença é que o barulho está mais próximo da nossa janela. Então, “durma-se com um barulho destes”.

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