Vice de Serra já se prepara para assumir

Embora o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), sustente em público a incerteza da sua candidatura à Presidência, seu vice, Gilberto Kassab (PFL), já está se preparando para assumir a vaga do tucano desde o ano passado.

Personagem pouco conhecido dos eleitores, Kassab, 45, tem estudado plantas da cidade e acompanhado Serra em eventos com maior freqüência –até já comandou sozinho reunião com subprefeitos. O processo de transição na prefeitura paulistana já começou.

Apontado por amigos e adversários como habilidoso articulador político, o pefelista gosta de exercer seu poder nos bastidores. Evita aparecer em público e se esquiva do contato com a imprensa. Por ter esse perfil, interlocutores do vice-prefeito apontam a saída de Serra da prefeitura como a grande chance de Kassab –e do PFL– de assumir um cargo no Executivo sem uma eleição.

A eventual saída do tucano significará para o PFL o comando, até 2008, do terceiro maior orçamento do país (R$ 17,233 bilhões de receita estimada para 2006).

Segundo pessoas próximas a Kassab, o vice vem se preparando para assumir a cidade desde as eleições de 2004, quando já se aventava a hipótese de Serra, então candidato a prefeito, se candidatar em 2006 à Presidência.

O movimento de Kassab, que conta com a anuência do prefeito, se intensificou nos últimos seis meses, quando o escândalo do "mensalão" antecipou a corrida eleitoral.

"Risco Kassab"

Com a disputa no PSDB polarizada entre Serra e o governador Geraldo Alckmin (SP), Kassab passou a ser alvo de ataques do grupo do governador, que aponta "o risco Kassab" na eventual saída de Serra da prefeitura: recentemente, o secretário estadual de Educação, Gabriel Chalita, e o deputado estadual Milton Flávio exploraram o fato de Serra deixar o cargo com "outro partido".

A tática é semelhante à utilizada durante as eleições, quando petistas apelidaram o pefelista de "gerentão do Pitta", em referência ao período de um ano e três meses que Kassab comandou a Secretaria do Planejamento do prefeito Celso Pitta (1997-2000).

Apesar de já ter dito que não teria participado da prefeitura de Pitta se tivesse "bola de cristal", Kassab não deixou o cargo por causa das denúncias que atingiram a gestão. A saída aconteceu depois que Pitta negou ao PFL quatro secretarias, segundo fontes ouvidas pela Folha.

A participação no governo de Pitta, sucessor de Paulo Maluf na prefeitura, foi um dos motivos da rejeição de Serra ao nome de Kassab na chapa: ele preferia ter como vice Lars Grael, hoje secretário do governo Alckmin. Kassab foi imposto ao tucano pelo PFL.

Vencidas as eleições, o vice-prefeito se mostrou hábil no diálogo com a Câmara, principalmente com o "centrão", grupo formado por 18 vereadores do PTB, do PL, do PMDB e do PP. Mesmo com negociações caso a caso, quase todos os projetos estratégicos da administração foram aprovados.

"Não existe risco Kassab. Ele reúne todas as condições para continuar o trabalho do Serra", diz o deputado estadual Campos Machado (PTB), um dos políticos afinados com o pefelista.

Continuar o trabalho do tucano é o acordo entre os dois que tem validade até 31 de dezembro de 2006, segundo a Folha apurou. Após a eventual saída de Serra, que deve ocorrer até 1º de abril, o vice manteria a equipe e os projetos, dando inclusive crédito ao tucano de realizações da prefeitura.

Em 2007, Kassab começaria a impor a sua marca, na tentativa de fortalecer o PFL na capital e no Estado. Uma das estratégias é atrair os votos da direita paulistana, órfã com a decadência do malufismo. "Há um vácuo, que o PFL quer ocupar", diz o pefelista Rodrigo Garcia, presidente da Assembléia e amigo de Kassab.

Suspeitas

Garcia é sócio do vice-prefeito em quatro empresas (de transporte, agropecuária, engenharia e do setor gráfico), às quais Kassab atribui o crescimento de seu patrimônio: de 1994 a 1998, o salto foi de 316%, descontada a inflação. Em 2004, o Ministério Público Estadual passou a investigá-lo por suspeita de enriquecimento ilícito, mas nada foi comprovado.

Questionado sobre o aumento, seu sócio diz não poder responder por Kassab e, em tom de brincadeira, afirma que o seu patrimônio não cresceu como o do amigo.

Em 2003, o vice de Serra enfrentou outra suspeita, quando um investigador da Polícia Civil foi detido na rodovia Anhangüera, em Santa Rita do Passa Quatro (253 km de SP), com US$ 130 mil. À época, o policial disse que o dinheiro pertencia a Kassab. O pefelista afirmou desconhecer a origem dos dólares e o motorista. Mais uma vez, nada foi provado.

Formado em engenharia civil e economia pela USP (Universidade de São Paulo), Kassab começou a carreira política em 1993, como vereador em São Paulo pelo PL. Depois, foi eleito deputado estadual e federal, reelegendo-se em 2002 à Câmara dos Deputados.

Foi como um político de bastidores que Kassab cresceu no PFL nos últimos dez anos, reformando e fortalecendo o partido no Estado de São Paulo.

Depois de trocar o PL pelo PFL, em 1995, reordenou diretórios municipais e se cacifou junto à cúpula pefelista.

Consolidou a confiança do presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), a quem tem como mentor, com articulações como a que culminou na retratação do senador baiano Antônio Carlos Magalhães, em 2003, após este ter acusado Bornhausen de "roubar o partido". O presidente da sigla pediu a expulsão de ACM. Kassab foi o relator do processo, arquivado após o baiano afirmar reconhecer a "lisura dos atos" do catarinense à frente do PFL.

Outra costura de Kassab foi a formação da chapa PSDB-PFL, em 2002. Kassab foi responsável pela indicação de Cláudio Lembo à vaga de vice de Alckmin.

É com frieza, aparente tranqüilidade e muito cálculo que o pefelista dá cada passo, dizem aliados e adversários. Discreto, não demonstra ansiedade para assumir o cargo que pode herdar. Aliados dizem ainda que as críticas vindas do grupo de Alckmin não o abalam. Segundo o deputado Campos Machado, "ele não olha no retrovisor para não bater o carro".

Fonte: Folha Online

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