Falsos moralistas: quem são eles?

Falso moralista “é o indivíduo, mais ou menos sombrio, que se entrega com gosto à tarefa de condenar tudo e todos para ressaltar uma pureza própria [inexistente]” (Arteta, Tantos tontos tópicos, p. 17). Eles estão presentes em todas as partes, mas o destaque vai para o mundo político.

Outro dia um político disse: “Golpe é ganhar votos com dinheiro do crime”. Pelos dados do TSE, Dilma gastou R$ 318 milhões em sua campanha de 2014; Aécio declarou gasto de R$ 217 milhões. Se dinheiro não é grama, de onde brotou essa dinheirama toda (e isso é só a parte oficial)?

Diante de tudo que está provando a Lava Jato, o dinheiro da corrupção saía dos contratos da Petrobras (com empreiteiras e outras empresas) diretamente para vários partidos políticos (PT, PMDB, PP, PSDB etc.). É um autoengano supor que somente os partidos governistas receberam dinheiro sujo. Também Sérgio Guerra recebeu R$ 10 milhões, Aloysio Nunes R$ 500 mil, Eduardo Campos R$ 20 milhões etc.

Ou seja: dinheiro do povo passou pelas mãos de Vaccari, Mercadante, Aloysio Nunes, Sérgio Guerra, Eduardo Campos, Zé Dirceu, Duque, Cerveró, Fernando Baiano, Barusco, Paulo Roberto Costa, Youssef etc. Uma parte ficava pelo meio do caminho; outra ia para os partidos, inclusive por meio de “doações legais” (lavagem) junto à Justiça Eleitoral.

Quem mais “doou” em 2014? JBS (R$ 391 milhões), Odebrecht (R$ 111 milhões), Bradesco (R$ 100 milhões), Andrade Gutierrez (R$ 86 milhões), OAS (R$ 80 milhões), Vale (R$ 78 milhões), Queiroz Galvão (R$ 75 milhões) etc. (Folha 19/9/15: A10).

Os políticos falsos moralistas somente podem ser admirados quando seus seguidores tapam o nariz. O que nos compete como cidadãos (para promover a necessária faxina naqueles que não queremos mais como governantes) é lutar por uma mudança radical na nossa democracia. Se ela se livrasse das organizações criminosas já experimentaria grande avanço.

Perguntaram uma vez a um rabino “por que continuava predicando, se sabe que não se pode mudar os malvados?”. O rabino respondeu: “Para não mudarmos nós”.

Falso moralista, em suma, é a pessoa que prega a moral e os bons costumes, porém, no seu dia-a-dia, não pratica a moral que ele defende ou julga correta. O político que prega contra o roubo e a corrupção e no final sai com dinheiro na cueca é um falso moralista. Moralista (ou moralista ético, eu diria) “é a pessoa que não abandona um segundo sequer a consciência de que deve se construir como um ser moral, que não deve viver como um bicho, sim, como um ser consciente e livre” (diz Arteta, p. 17).

Falso moralista “é o personagem que, amparado em seus dogmas [religiosos ou laicos], acredita dispor da receita apropriada para admoestar em cada momento os presumíveis vícios do vizinho” (Arteta). Moralista (moralista ético, eu diria) “é o que constantemente reflete sobre os valores morais e éticos para distinguir e eleger – com argumentos, não com crenças – o comportamento ou o humano ótimo, o bom e o mau” (Arteta).

ARTETA, Aurélio. Tantos tontos tópicos. Barcelona: Editorial Planeta, 2012, p. 15.

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